Todo o mundo mente, escreve a antropóloga Paula Sibilia, mas existe uma diferença fundamental entre os hipócritas e os cínicos.

Os hipócritas partem da premissa de que existe uma verdade e que devem seguir regras de convívio social —tentam esconder as transgressões porque, no fundo, acreditam que mentir não é certo.

Já os cínicos rejeitam completamente essa moralidade: não fingem que respeitam leis ou normas que nunca valeram para todo o mundo e sentem que têm o direito de adotar até discursos violentos —e ainda podem receber aplausos por serem vistos como autênticos ou sinceros.

Sibilia, ensaísta argentina e professora da UFF (Universidade Federal Fluminense), recorre às noções de hipocrisia e cinismo para debater a mudança, nas últimas décadas, do solo moral em que a vida social está enraizada.

No recém-lançado "Eu Mereço" (Ubu), a pesquisadora se debruça sobre a erosão das engrenagens subjetivas da modernidade e o fortalecimento de uma moralidade consumista e individualista desde os anos 1960, período em que um eu empoderado passou a ser estimulado a desejar o tempo todo em vez de ser reprimido em nome do funcionamento da sociedade.