Apesar da aparente liberdade das plataformas digitais, lembremos sempre: a sua vida não cabe no Instagram 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Redes sociais — Foto: Martin Lelievre / AFP Espera-se que, ao longo da vida, a gente adquira gostos, interesses, ritmos, desejos e identidades diferentes. É normal. O amadurecimento cobra rupturas, por vezes, mudanças bruscas, na forma como nos comportamos e revelamos quem somos. O problema é que, em tempos de redes sociais, o passado não aparece como memória, mas como fantasma. Tudo está registrado nos servidores das big techs e pronto para nos atormentar. As traquitanas nos tiraram o direito de esquecer. Uma opinião ou foto de tempos atrás, publicada em outro contexto, retorna com toda força, sem maiores explicações, e pode colocar em risco a sua reputação. Então, como lidar com um passado que desejamos abandonar para termos a chance de nos reinventar? Tempos atrás, ouvi com atenção a preocupação de uma amiga com o comportamento da irmã mais jovem. Marina tinha 35 anos, viveu a adolescência sem celular e redes sociais. Ao contrário da sua irmã, Fernanda, de 18, que não faz a menor ideia de como viviam os mortais na era pré-internet. O choque de gerações se deu por conta do feed do Instagram. Assim que saiu da escola, Marina decidiu apagar todas as fotos antigas da rede social. No novo feed, apenas três publicações: uma foto de biquíni em uma praia caribenha, outra em uma boate famosa com o namorado e a terceira, uma foto dos tempos da infância. No último ano, foi a caçula Fernanda que deixou a escola em que cresceu para entrar na universidade. Trocou a van escolar pelo transporte público, descobriu os pagodes do Thiaguinho, ganhou novos amigos, afastou-se dos antigos, perdeu o pai e arrumou um namorado. Ainda não sabe quem é, mas virou outra — e as fotos estão lá para provar. Para apaziguar o conflito entre as irmãs, eu me meti na confusão: rede social não é álbum de família. Cada um conta a história que lhe cabe. É longa, nas Ciências Sociais, a lista dos autores interessados em pensar as conexões entre memória e identidade. Se com Waly Salomão sabemos que “a memória é uma ilha de edição”, atenta a cortar, selecionar e reorganizar as lembranças, com os cientistas sociais aprendemos que as escolhas editoriais de cada um de nós existem, em grande parte, para sustentar a ideia de quem somos. Enfim, lembramos de um passado que nos ajude a dar algum contorno para a nossa própria identidade. O que foge à narrativa é jogado fora. Ou, pelo menos, era. O problema das redes sociais e dos arquivos das plataformas digitais está no fato de congelarem a vida dos usuários em um tempo que não passa. É o que chamo de presente eterno. Por lá, o “ontem” é sempre tratado como “hoje” e vive a nos cobrar uma certa conformidade e coerência com o que não somos mais. Numa etapa da vida de intensa transformação, os mais jovens estão diante de uma encruzilhada temporal: oprimidos pela obrigação de realizar um futuro perfeito, presos a um presente no qual precisam se provar a todo instante aos olhos dos outros e aterrorizados com a possível volta do fantasma do passado. Sendo assim, não há muita escolha: ou inventam-se perfis alternativos ou apaga-se tudo para se reinventar. Caso contrário, hão de carregar o fardo de ser quem já não são mais. Não importa a idade ou o momento da sua vida. Apesar da aparente liberdade de postagens nas plataformas digitais, é preciso que lembremos sempre: a sua vida não cabe no Instagram.