Jonathan Haidt, autor de Geração Ansiosa, diz que demorou para perceber o efeito mais nocivo das redes sociais e vídeos curtos: a precarização da atenção pode ser ainda pior que a da saúde mental 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mulher é lançada em rope jump, mas sem cordas, no interior de SP — Foto: Reprodução/Redes Sociais RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/06/2026 - 18:21 Jonathan Haidt: Redes sociais devastam atenção mais que saúde mental Jonathan Haidt, autor de "Geração Ansiosa", alerta sobre o efeito devastador das redes sociais na atenção, superando até mesmo o impacto na saúde mental. Um trágico incidente em Limeira, onde a atenção ao conteúdo superou a segurança, simboliza essa crise. Pesquisas revelam que a atenção média caiu drasticamente, afetando aprendizado e relações. Para reverter, Haidt sugere práticas como leitura e redução do uso digital. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Num artigo genial publicado esta semana no Intercept Brasil, a jornalista Fabiana Moraes descreve o momento: às 7h31 de um sábado, Maria Eduarda Rodrigues de Freitas postou uma foto na Ponte do Esqueleto, em Limeira, antes de ser lançada de uma altura de quase 40 m por instrutores de rope jump. A empresa instalou a câmera GoPro no corpo dela, mas a corda ficou para trás, esquecida. Maria voou para a morte. Fabiana retrata essa impressionante metáfora do nosso tempo: a atenção de todos ali, inclusive dos responsáveis, estava no conteúdo, no registro. Não na segurança de uma jovem de 21 anos. A imagem a ser exibida em detrimento da vida. A Meta vale mais de um trilhão de dólares, usa o vicio para sequestrar a atenção de metade da humanidade. O mais valioso ativo da contemporaneidade é então vendido a anunciantes. Registrar e compartilhar passou a ser parte principal da experiência. Não se assiste mais a um show, se filma. A gravação do salto tornou-se mais importante do que viver o salto. O custo neurológico da deterioração da atenção causada pela onipresença das tecnologias digitais é mensurável. Os estudos de Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, mostram quanto tempo as pessoas sustentam atenção numa única tela. Em 2004: 150 segundos. Em 2012: 75 segundos. Hoje: 47 segundos em média. Uma metanálise de 71 estudos com quase 100 mil participantes encontrou associação robusta entre uso de vídeos curtos e piora da atenção sustentada. A atenção é crucial para qualquer dimensão da vida: aprendizado, trabalho, usufruto, viagens, relacionamentos. Estar atento é estar presente. Jonathan Haidt, autor de Geração Ansiosa, aconselhou aos formandos da NYU: “Valorizem sua atenção. Aquilo a que vocês dedicam atenção molda o que passa a importar; e o que importa molda quem vocês se tornam”. Ele diz que demorou para perceber o efeito mais nocivo das redes sociais e vídeos curtos: a precarização da atenção pode ser ainda pior que a da saúde mental. Os sintomas estão em todo lugar. Adolescentes não leem mais; assistem séries dubladas para poder olhar o TikTok ao mesmo tempo. Professores relatam alunos incapazes de assistir sequer a um filme de mais de 15 minutos. Bebês passeiam em seus carrinhos com tablets à frente dos olhos, sem perceber o mundo. Países escandinavos reverteram o modelo de dispositivos individuais nas escolas ao constatar que a distração superava qualquer ganho pedagógico. O PISA mostra uma década de queda em compreensão de leitura — habilidade que exige sustentar o foco de maneira contínua. A leitura profunda estimula analogias, inferências, empatia e criticidade — que o consumo de vídeos rápidos e engajantes impede. A memória de trabalho, sobrecarregada pelo volume de estímulos, perde a capacidade de transferir informação para a memória de longo prazo. O resultado óbvio é a incapacidade de aprender. A poeta Mary Oliver escreveu: “Preste atenção. Maravilhe-se. Depois, conte sobre isso.” Prestar atenção se tornou um ato de resistência. É o pré-requisito do cuidado, da presença, do amor. Um pai que não consegue sustentar atenção em seu filho não está de fato com ele, e isso tem consequências nefastas. Um casal que olha para suas telas em vez dos olhos um do outro está separado. Os antídotos são conhecidos: leitura, brincar livremente, enfrentar o tédio. Conversar sem celular na mesa. Adiar ao máximo o smartphone e as redes sociais. Os danos são reversíveis: estudos mostram recuperação parcial da atenção após períodos de abstinência digital. A janela de neuroplasticidade da infância é a mais ampla, e se aproveitada produz enormes benefícios. Mas ela não dura para sempre. Coloque a corda em seus filhos, mostre que a vida vale mais que o conteúdo.
Atenção: morte e ressurreição
Jonathan Haidt, autor de Geração Ansiosa, diz que demorou para perceber o efeito mais nocivo das redes sociais e vídeos curtos: a precarização da atenção pode ser ainda pior que a da saúde mental









