Psicólogo americano Jonathan Haidt elogia lei brasileira que bane celulares nas escolas, mas alerta que violência urbana impede jovens de trocarem as telas pelo mundo real Psicólogo americano Jonathan Haidt — Foto: Jayne Riew / Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/06/2026 - 21:45 Psicólogo elogia proibição de celulares nas escolas brasileiras e alerta sobre IA O psicólogo Jonathan Haidt, autor de "A Geração Ansiosa", critica o impacto das telas na juventude e elogia a lei brasileira que proíbe celulares nas escolas. Ele alerta que a violência urbana dificulta a interação real entre jovens. Haidt destaca a IA como um novo desafio, afirmando que ela reduz a capacidade de pensar dos jovens. Ele defende a importância de experiências reais e relacionamentos físicos para o desenvolvimento saudável das crianças e adolescentes. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Depois do best-seller “A Geração Ansiosa” (2024), o psicólogo americano Jonathan Haidt lançou em março, pela Companhia das Letras, “A geração incrível”. Escrito com a jornalista Catherine Price, o livro é um guia para menores de 14 anos se libertarem das telas, detalhando como as big techs capturam a atenção dos jovens. Em entrevista ao GLOBO, o professor da New York University compara o setor ao do tabaco e elogia iniciativas brasileiras de restrição. Ele alerta, porém, que a violência urbana no Brasil e nos EUA dificulta a criação de espaços seguros de convivência, e aponta a inteligência artificial como o próximo desafio regulatório. Por que você usou o termo rebeldes para descrever os adolescentes que decidem parar de usar as redes sociais? Há muitas pressões para fazer o que todo mundo está fazendo. Quando todo mundo está rindo de um meme e você não sabe qual é, isso é muito difícil. Há pressão para se conformar, seguir o fluxo, fazer parte do grupo. Os indivíduos que resistem são heroicos. É difícil de fazer isso, mas a longo prazo eles se divertem mais e ganham mais respeito. Quando eles decidem não usar redes sociais e outros adolescentes descobrem, nunca dizem: “isso é estúpido”. O que eles geralmente dizem é: “Uau, gostaria de poder fazer isso”. É difícil ser rebelde, mas respeitamos os rebeldes. Qual estratégia você recomenda para ajudar adolescentes a ficarem longe de seus celulares? Em relação a crianças de 9 e 10 anos, essa é a idade na qual elas estão começando a usar redes sociais. Elas estão ganhando o primeiro dispositivo entre os 2 e 4. Quando são muito pequenas, os pais dão um iPad ou um celular antigo. Isso é muito ruim. Muitas delas já estão viciadas em reações rápidas, cores brilhantes, dopamina rápida. Por isso, é importante para o desenvolvimento que elas obtenham mais dopamina lenta. Isso significa ter prazer em fazer coisas que levam mais de dez segundos. É importante mantê-las longe de situações onde elas possam fazer algo, receber uma recompensa, fazer algo, receber uma recompensa. É isso que leva ao vício e à falta de atenção. Os pais devem se organizar para que os filhos tenham aventuras no mundo real, como construir um forte fora de casa, um aeromodelo, uma coisa física que leve uma hora para ser feita. Ao final desse trabalho, eles têm algo. Isso é saudável. O objetivo dos meus livros não é tirar os telefones. É conectar as crianças a pessoas e projetos no mundo real. Capa do livro 'A geração incrível', do psicólogo americano Jonathan Haidt — Foto: Divulgação E mais velhos? Aos 14, 15, 16 anos, a maioria terá redes sociais. Ainda acho que precisamos adiar isso até os 16 anos. Acho muito importante deixá-las passar pela puberdade antes. Temos que mudar as normas sobre o que as crianças estão fazendo, mas precisamos dar aos adolescentes lugares para ir. Moro na cidade de Nova York, e meus filhos frequentam escolas públicas. Mas mesmo aos 16 anos, eles não são permitidos em muitas lojas porque os lojistas têm medo de furto. Não querem que nenhum adolescente entre. Então, esse é um problema: eles não têm muitos lugares bons para ir sem adultos. Esse é o desafio para nossas sociedades. No Brasil e nos EUA, temos taxas de criminalidade relativamente altas comparadas, digamos, à Europa, onde é muito mais baixa. Temos que encontrar maneiras das crianças poderem conviver em segurança. O pátio da escola é uma boa opção. As escolas podem fazer muito mais para manter seus pátios abertos como lugares onde as crianças possam apenas se encontrar e depois ir a algum lugar juntas. Chatbots de IA tornaram-se muito populares. Como eles afetam essa geração? As redes sociais usam IA desde cerca de 2010. Parte da razão pela qual são tão viciantes é que usam IA para governar o feed. Agora, desde o ChatGPT, as crianças estão falando diretamente com a IA. E até agora, os resultados iniciais são terríveis. Vimos vários jovens levados ao suicídio, pessoas levadas à psicose porque você mergulha fundo em uma conversa com uma criatura que é bajuladora. As crianças não deveriam ter um amigo bajulador que lhes diga que são brilhantes e confirmem tudo o que querem acreditar. Elas precisam aprender a ter interações com pessoas reais que, muitas vezes, são difíceis. As redes sociais já reduziram a capacidade de atenção e as privaram de habilidades sociais. Agora, a IA está reduzindo a capacidade de pensar, pois deixam a IA fazer isso por elas. Não precisam pensar, não precisam aprender nada. Podem apenas perguntar à IA. Devemos tratar essas indústrias de tecnologia como se fossem companhias de tabaco tentando nos viciar. Cada sociedade tem que descobrir como regular isso. Devemos manter as crianças longe dos chatbots de IA? Qual deveria ser a abordagem? O que posso dizer com confiança é que menores de idade não deveriam ter relacionamentos com IA. Então, qualquer produto que simule um relacionamento deveria ser limitado a adultos, maiores de 18 anos. Isso significa namorados e namoradas de IA, parceiros sexuais de IA. A questão do ChatGPT é muito difícil porque, é claro, você pode transformá-lo em um parceiro sexual se fizer o prompt corretamente. Mas não estou pronto para dizer que menores de idade não devam usá-los. Para chatbots que são apenas informacionais, precisamos ter muito cuidado e precisamos ter normas sobre quando isso é usado e como limitá-lo. No Brasil, temos uma lei que proíbe celulares nas escolas. Você acha que o livro pode ajudar os adolescentes a lidarem com isso? Crianças não têm necessidade evolutiva de ficar no celular. Elas têm uma necessidade de estar umas com as outras. Temos que encontrar maneiras para que façam isso. Se tudo o que sabem é competir por seguidores ou visualizações, bem, então é nisso que elas vão se concentrar. Portanto, é importante encontrar maneiras de deixá-las serem crianças e adolescentes. Nossos países têm muito em comum. São grandes, diversos e com taxas de criminalidade relativamente altas em comparação com a Europa. Mas eu diria que o Brasil e a Austrália são as duas nações que lideram a resposta e que estão tomando medidas para proteger as crianças. O desafio que vi no Brasil é que, como algumas cidades têm altas taxas de criminalidade, os pais têm medo de deixar seus filhos saírem, mesmo aos 11, 12, 13 anos. Vocês estão fazendo a coisa certa ao controlar o uso do telefone, mas agora vocês precisam encontrar maneiras para que os adolescentes estejam protegidos no mundo real. E em alguns lugares do Brasil, o mundo real é perigoso. Os brasileiros talvez tenham que trabalhar mais por espaços onde os adolescentes possam conviver de uma maneira que seja fisicamente seguro, mas que não esteja sob a supervisão direta de adultos. Crianças, adolescentes precisam de alguma independência e cada país terá que encontrar maneiras diferentes de dar isso a eles. No livro, você distingue entre amizades e diversão reais e não reais. Por que relacionamentos construídos à distância também não podem ser reais? Porque somos criaturas biológicas com corpos, e nossa programação inata para relacionamentos inclui o toque. Nós nos abraçamos. São processos psicológicos muito profundos. Quando você parte o pão com alguém, isso une. Relacionamentos virtuais não têm toque. Eles não têm comida partilhada. Quando nos movemos juntos no tempo, caminhamos e cantamos juntos, fazemos coisas que nos sincronizam com outra pessoa, isso nos conecta mais profundamente. Os relacionamentos nas redes sociais são, em sua maioria, assíncronos. Você posta algo, eu comento na sua postagem, você comenta no meu comentário. Isso não é muito satisfatório.
'IA reduz a capacidade de pensar dos nossos filhos', diz autor do best-seller 'A Geração Ansiosa'
Psicólogo americano Jonathan Haidt elogia lei brasileira que bane celulares nas escolas, mas alerta que violência urbana impede jovens de trocarem as telas pelo mundo real












