Apareceu no meu feed: "Ô Gil, que que cê mais gosta de fazer na vida?" "Dormir." O entrevistador toma um susto. "Dormir?! É mesmo?! Mais do que cantar?!". Agora é o Gil que parece assustado com o entrevistador e responde, enfático: "É, dormir. A primeira coisa, a que eu mais gosto." "Por quê?" "Porque é bom, é uma sensação de entrega total à existência. É a existência sem a mediação excessiva do eu. Sem a exigência excessiva do ego. É a entrega, é o momento em que você tá na natureza sem precisar de você mesmo".
Brilhante. Sou do time do Gilberto Gil —senão na qualidade do que produzo acordado, ao menos no prazer que sinto dormindo. Algumas vezes me perguntaram qual era a melhor coisa de ser escritor. Imagino que esperassem uma resposta grandiloquente, tipo "a possibilidade de transformar minhas entranhas em palavras". Prefiro, no entanto, a possibilidade de deixar minhas entranhas descansarem. A resposta, pouco poética, é que a melhor coisa de ser escritor é ir pra cama a hora que eu quiser, acordar só quando passar o sono.
Adams Carvalho/Folhapress
Tenho o privilégio de vir ao mundo a maior parte dos dias sem despertador. Aí confiro o horário no celular e, num pequeno ato de desobediência civil, durmo de novo. Faço, aliás, esse complemento à frase do Gil: a melhor coisa do mundo não é dormir, é dormir de novo. Na adolescência, quando era submetido, como boa parte de nossa sofrida humanidade, à tortura de acordar de madrugada, deixava o despertador ligado nos fins de semana só pra acordar, lembrar que era sábado, domingo, virar pro lado e retornar aos braços generosos de Morfeu.







