É domingo.Não esqueço o dia em que me mordeste. Era de noite e eu estava meio adormecida, estendi a mão sem pensar e não contava sentir-te os dentes, não sabia que um homem podia morder assim; um animal doméstico que de repente se esquece de ser doméstico.É domingo e aos domingos regressa-me sempre essa lembrança, uma coisa pequena que insiste, os homens mordem, sobretudo de noite, sobretudo quando uma mulher está entre o sono e a vigília, entre a sede e o cansaço, mordeste com força e deixaste uma marca que ninguém vê mas que eu sinto todos os dias como se estivesse sempre a reabrir-se devagar, uma ferida em cicatrização que nunca acaba de fechar.Foi por isso que te substituí por um gato. As plantas já cá estavam. Não há vida mais tranquila do que falar com plantas e dormir com um cão, ou com um gato, tanto faz, eles não respondem, ficam apenas ali, um silêncio que não exige nada, e mesmo assim dizem tudo pela forma como estão, viçosos ou murchos conforme a água, o esquecimento ou o cuidado, conforme o gesto que lhes damos.As plantas e os animais são mais bonitos e mais gentis do que a maioria das pessoas que conheço, falar com plantas e com o gato não é o mesmo que falar com pessoas, claro que não, mas é assim que escolhi a minha vida, esta forma mais baixa de ruído. E isto não é um conselho. É apenas assim. É domingo e eu lembro-me. E continuo aqui, entre as plantas, o gato e uma marca que quase não se vê.