Existe esse momento da noite, quando todas as luzes e os sons e as demandas já foram encerrados (ou pelo menos assim teatralizamos), em que me deito na cama, minha filha automaticamente me abraça, e eu só consigo pensar que atravessei aquele dia, talvez a vida toda, esperando por isso.

Ela ainda tem oito anos. Até os dez posso ter a certeza de que nos abraçaremos na hora de dormir? Até os 13? Até qual idade ela vai querer adormecer agarrada a mim? É necessário sugar dessa cena um substrato de amor suficiente para que eu sobreviva quando sua adolescência chegar.Hoje penso na minha juventude e na minha existência como adulta antes de me tornar mãe. Quantas filas, pistas, listas, salas, testes, estradas e aeroportos. Parados, lentos, complicados. Eu queria tantas coisas. Mas no centro delas, no topo, na essência, estava esse momento em que me deito, enlaço a minha filha e então podemos adormecer. Toda a urgência, toda a expectativa, toda a paciência, toda a espera era também, e sobretudo, para conhecê-la e abraçá-la.

Eu que ainda quero tanto, quero mesmo é terminar o dia de mãos dadas com ela, com seu pijama de capivaras e lhamas, com minha rinite desesperada porque um chumaço do seu cabelo fininho está entrando no meu nariz. Quero acalmar meu cérebro com sua respiração quentinha, cada vez mais apaziguada.