Carlos Brandão, atual governador, foi vice de Flávio Dino no governo estadual, mas rompeu após ser reeleito; ministro do STF diz que não interefere nas discussões eleitorais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Carlos Brandão e Felipe Camarão, antes aliados, agora rompidos — Foto: Brunno Carvalho/Governo do Maranhão A investigação que apura suspeitas de perseguição ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e que motivou a quebra de sigilo da fonte de um jornalista do Maranhão, tem como contexto uma disputa política no estado e um racha no governo nas eleições deste ano. Dino governou o Maranhão por oito anos. Com Carlos Brandão de vice, o atual ministro do STF foi eleito em 2014, em um acordo político que encerrou um longo período de hegemonia da família Sarney no estado. Após a chapa ser reeleita em 2018, ele deixou o governo nas mãos do então aliado em 2022 para disputar o Senado. Após ser reeleito naquele ano, porém, Brandão rompeu com Dino. Em entrevista ao GLOBO no ano passado, o atual governador afirmou que o afastamento foi motivada por disputa por espaço do grupo político que era ligado ao hoje ministro do STF. Um das disputas envolve a sucessão no governo maranhense. Enquanto aliados de Dino apoiam a candidatura de Felipe Camarão (PT), atualmente vice-governador, Brandão lançou o sobrinho Orleans Brandão (MDB) ao Palácio dos Leões, no que foi apontado como traição a um acordo costurado ainda em 2022. A divergência fez com que Carlos Brandão desistisse de disputar o Senado neste ano e permanecesse no cargo, evitando, assim, que Camarão assumisse sua cadeira interinamente. Procurado, Dino não se manifestou. Ele costuma negar interferir nas discussões políticas do estado e, por força do cargo que ocupa, não participou das negociações eleitorais envolvendo seu antigo grupo de aliados. A disputa política ganhou novos contornos após Dino ser sorteado, no ano passado, como relator de um caso que apura coação em um processo por assassinato. Um dos alvos é o delegado aposentado Raimundo Cutrim, então secretário do governo Brandão. Caso no STF O caso remonta a agosto de 2022, quando houve o assassinato de um empresário em São Luís, capital maranhense. A morte, em uma via pública, foi filmada por câmeras de segurança, e o executor, Gilbson Cutrim, foi condenado a 13 anos de prisão pelo homicídio. A investigação aponta que, pouco antes, o empresário esteve reunido com um sobrinho de Brandão. Três anos depois, em maio do ano passado, porém, o caso teve uma reviravolta. A família de Gilbson procurou o Ministério Público para entregar um celular dele que, supostamente, apontaria a participação de mais pessoas no crime. A defesa do réu afirma que houve coação por parte de pessoas ligadas ao grupo político de Brandão, entre elas, Raimundo Cutrim, para que ele não revelasse a participação de um sobrinho do chefe do Executivo no Maranhão no crime. O ex-secretário passou a ser alvo do inquérito sob suspeita de coação de envolvidos no crime e de obstrução da Justiça. Uma das linhas de investigação apura se a morte do empresário está relacionada à suposta cobrança de propina. Procurado por meio de sua assessoria, Brandão disse não ter acesso ao processo e não comentou. Após a menção ao governador e ao seu sobrinho, o caso foi remetido ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em outubro de 2025, entretanto, o processo chegou ao STF, por meio de um habeas corpus em que a defesa solicitava o relaxamento do regime prisional do réu. No pedido, os advogados de Gilbson apresentaram mensagens que citavam um senador, que tem foro privilegiado na Corte. Dino foi sorteado relator e, além de mandar o réu para o semiaberto, avocou todo o processo. Um mês depois, em novembro de 2025, o jornalista Luís Pablo, alvo da operação nesta semana que apura suspeita de perseguição a Dino, passou a publicar em seu blog informações detalhadas sobre os carros oficiais usados pelo ministro e seus familiares quando estava em São Luís. O gabinete de Dino diz que não houve uso irregular dos veículos, pertencentes ao Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA), e afirma que um carro blindado foi cedido no âmbito de acordo de cooperação vigente com todos os tribunais do país. Após a publicação da reportagem, a Secretaria de Segurança do STF apontou risco à segurança do magistrado em razão da divulgação das placas dos veículos e de vídeos de seus familiares, inclusive de seus netos. A informação foi encaminhada à Polícia Federal, que pediu a abertura de inquérito para apurar suspeitas de perseguição. O caso inicialmente foi sorteado para o gabinete do ministro Cristiano Zanin, mas foi parar nas mãos do ministro Alexandre de Moraes após o STF entender que havia similaridade com o chamado inquérito das Fake News, aberto há sete anos para apurar ataques perpetrados contra integrantes da Corte. Em março deste ano, por ordem de Moraes, a PF apreendeu um notebook, dois celulares e um pendrive de Luís Pablo. Foi dada autorização para que os investigadores acessassem o conteúdo dos eletrônicos, inclusive mensagens. Conforme a ordem, o conteúdo deveria ser analisado de forma prioritária e o relatório parcial deveria ser entregue pela PF em 30 dias. Ao mesmo tempo em que o inquérito sob relatoria de Moraes avançava sobre o jornalista, houve novos desdobramentos no caso relacionado ao processo de coação e obstrução de justiça. Em julho, Raimundo Cutrim foi alvo de mandado de prisão após a defesa de Gilbson apresentar um áudio atribuído ao ex-secretário em que ele pede a familiares do preso para convencê-lo a não incriminar o sobrinho do governador. Menos de um mês depois, na terça-feira passada, Raimundo foi novamente alvo de operação após a PF descobrir mensagens em que ele repassa fotos e informações dos veículos usados por Dino. Moraes autorizou as buscas após identificar que o ex-secretário era a fonte do jornalista. Para entidades que representam a imprensa, na decisão em que autoriza a ação, o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso a Corte, ignorou o direito constitucional ao sigilo das fontes jornalísticas. A investigação também encontrou um repasse de R$ 100 mil, realizado em setembro do ano passado, e apura se serviu como pagamento a Luís Pablo pelas publicações. O dinheiro foi transferido por um advogado ao dono de um imóvel rural comprado pelo jornalista. Na decisão, porém, Moraes não aponta vinculação direta entre o repasse e as reportagens. Luís Pablo nega que o dinheiro serviu como pagamento às publicações e diz que o repasse, feito por um advogado, tratou-se de um empréstimo, que ele já devolveu. Já Raimundo afirma, por meio de sua defesa, não ter qualquer relação com a transferência citada na decisão. "Nenhum valor é imputado ao Sr. Cutrim em qualquer das decisões cujo teor veio a público, nem a ele nem à sua defesa é atribuída participação nas transações mencionadas. Eventuais esclarecimentos serão prestados oportunamente, conforme o acesso pleno aos autos", dizem, em nota, seus advogados.