Ministro Alexandre de Moraes autorizou, nessa semana, uma operação contra Raimundo Cutrim, ex-secretário do Maranhão, que teria passado informações de Dino para jornalista 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Flávio Dino, ministro do STF — Foto: Antonio Augusto/STF O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), disse nesta quinta-feira (13) que a condição de magistrado o impede de participar cotidianamente de “apaixonados” debates públicos e que isso inclui "suportar calado agressões e injustiças" e "assistir a distorções monumentais". A declaração ocorre na mesma semana em que o ministro Alexandre de Moraes autorizou uma operação da Polícia Federal (PF) contra Raimundo Cutrim, apontado como fonte do jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, do Maranhão, em publicações sobre o uso de carros oficiais por Dino. A PF investiga suposto monitoramento ilegal do ministro e seus familiares. “Como já tive oportunidade de esclarecer, a minha atual função de juiz impede-me de participar cotidianamente de 'apaixonados' debates públicos. Isso inclui suportar calado agressões e injustiças, assistir a distorções monumentais quanto a fatos, acompanhar perplexo a exposição de interpretações absurdas”, afirmou Dino em publicação no Instagram. O ministro disse ainda que, em funções anteriores, podia se manifestar publicamente com maior frequência, mas que atualmente isso só ocorre de maneira excepcional. Dino classificou essa limitação como parte do “ônus do meu ofício” e afirmou que o assume de forma consciente diante da responsabilidade que atribui ao exercício da jurisdição. Ao final, disse considerar sua trajetória profissional e sua atuação no serviço público, ao longo de 37 anos, como sua principal defesa. Raimundo Cutrim, alvo da operação dessa semana, é ex-secretário extraordinário de Assuntos Legislativos do Maranhão. A investigação apura suspeitas de perseguição a Flávio Dino e de obtenção e divulgação de informações de forma irregular. A medida teve aval da Procuradoria-Geral da República (PGR) e o caso tramita sob sigilo no STF. Como informou o Valor anteriormente, especialistas consultados apontaram possível violação da garantia constitucional do sigilo da fonte. Porém, juristas ouvidos ressaltaram que, sem acesso aos autos, não é possível avaliar integralmente os fundamentos utilizados para autorizar a medida. Investigação A investigação começou após Luís Pablo publicar, a partir de novembro de 2025, reportagens sobre o suposto uso irregular de veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) por Dino e familiares em deslocamentos em São Luís. Em março, a Polícia Federal já havia cumprido um mandado de busca e apreensão contra o jornalista. A operação realizada na terça-feira é um desdobramento daquela investigação. A partir da análise de celulares e outros equipamentos apreendidos na primeira operação, os investigadores identificaram Cutrim como a pessoa que teria repassado informações ao jornalista. O ex-secretário é investigado por suspeita do crime de "stalking", relacionado a uma suposta perseguição ao ministro e a seus familiares. Segundo a PF, as informações sobre veículos utilizados por Dino teriam sido obtidas de sistemas de acesso restrito. Em nota, a defesa de Cutrim afirmou que ainda não teve acesso à íntegra dos autos. Os advogados disseram que, pelo que foi tornado público, a operação está relacionada às reportagens de Luís Pablo e ressaltaram que as supostas irregularidades apontadas nas publicações ainda não foram objeto de apuração, segundo a defesa. Tribunal nega uso irregular de veículos A assessoria de Flávio Dino já havia afirmado que o ministro nunca utilizou de forma irregular veículos oficiais do TJ-MA. Segundo a manifestação, Dino seria alvo recorrente de “agressões” e teria tido veículos próprios e de familiares monitorados. “As pessoas que comandavam esse esquema não são jornalistas”, afirmou na ocasião. “O trabalho dos investigadores também apontou o acesso ilegal, por funcionário público, a informações sigilosas de segurança, que foram utilizadas em um monitoramento clandestino e ilegal. Foram produzidas clandestinamente imagens do ministro e da sua família, inclusive filhos que são crianças, abrangendo seus itinerários habituais e normais. A investigação continua para determinar os motivos e os objetivos do monitoramento”, prossegue a nota. Segundo a Folha de S.Paulo, a investigação da PF também aponta a suspeita de que o jornalista tenha recebido R$ 100 mil para quitar um imóvel em uma operação que, na avaliação dos investigadores, poderia estar relacionada à publicação das reportagens. Em entrevista ao jornal, Luís Pablo negou ter recebido dinheiro para produzir os textos. Ele afirmou que o valor correspondeu a um empréstimo feito por um amigo pessoal, advogado, para a aquisição do imóvel, e negou qualquer relação entre a transação e as reportagens sobre Dino. Segundo ele, não há, nas conversas analisadas pela investigação, qualquer evidência de que tenha recebido dinheiro para publicar conteúdos contra o ministro. Luís Pablo afirmou ainda ao veículo que a decisão de Moraes o prejudicou profissionalmente, afirmando que a identificação de uma fonte pode comprometer a relação de confiança necessária para que outras fontes continuem a fornecer informações a ele. O jornalista também negou ter perseguido Dino ou seus familiares. Segundo ele, as publicações foram elaboradas a partir das informações e dos materiais que recebeu de sua fonte, sem que tivesse participado de qualquer ação de monitoramento contra o ministro ou sua família. Em nota conjunta após a decisão de Moraes, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) manifestaram “preocupação” com a operação autorizada por Moraes e apontaram riscos à liberdade de imprensa e ao sigilo constitucional das fontes. As entidades afirmaram que medidas judiciais que levem à identificação de fontes não encontram respaldo na Constituição e destacaram a proteção prevista no artigo 5º, inciso XIV. “Questionamentos a reportagens devem ser tratados dentro da lei, que prevê direito de resposta e indenização. A violação do sigilo do profissional e de suas fontes leva a intimidações contra a imprensa”, concluem as entidades.13/08/2026 11:52:07