Comecei a trabalhar na Amazônia há 25 anos. Naquela época, a aliança que reúne ambientalistas e povos da floresta já estava formada e tinha identificado duas grandes prioridades que norteariam sua ação. Primeiro, era preciso combater o desmatamento. Segundo, era preciso transformar os incentivos econômicos vigentes para que os demais amazônidas vislumbrassem mais lucro mantendo a floresta em pé do que derrubando as árvores para extrair toda a madeira ou criar gado.PUBLICIDADENa primeira prioridade, os avanços foram extraordinários. Por duas vezes, os governos Lula e as gestões de Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente conseguiram reduzir o desmatamento de forma notável. O ciclo inicial ocorreu entre 2004 e 2012, quando houve queda de 83% na derrubada de florestas primárias, de quase 28 mil km² no início do período para menos de 5 mil km² no seu final. O segundo ciclo começou em 2022, quando o presidente Lula e a ministra Marina voltaram ao poder. Apesar das condições serem mais adversas, eles, junto com suas equipes e aliados, conseguiram reduzir o desmatamento mais uma vez, e a cada ano ele caiu mais. A restauração produtiva das áreas já desmatadas, aquilo que o Amazônia 2030 chama de 'rematamento', é uma estratégia de desenvolvimento regional para a Amazônia Foto: Daniel Teixeira/EstadãoNa segunda prioridade, porém, o sucesso tem sido muito mais modesto, e esse flanco desguarnecido cria problemas graves. Aqueles que combatem o desmatamento, por exemplo, precisam trabalhar dobrado, uma vez que a repressão alimenta sua própria resistência. Outro problema é o risco de retrocesso, que já ocorreu no passado. Entre 2012 e 2022, a alternância de poder no governo federal permitiu que o desmatamento voltasse a subir até atingir um pico de 13 mil km² em 2021.E, mesmo quando não detêm o poder executivo federal, os líderes políticos que defendem a revogação das leis socioambientais têm avançado sua pauta em outros âmbitos. A moratória da soja, por exemplo, entregou excelentes resultados por 20 anos, mas entrou em colapso em 2026 após uma série de ataques iniciados por governos estaduais. PublicidadeNo Congresso, a hostilidade à agenda socioambiental também cresce. Ao invés de discutir e aprovar leis para demarcar mais terras indígenas ou criar e expandir unidades de conservação, o poder legislativo tem enfatizado projetos que ganham apelidos reveladores, como MP da grilagem, PL da morte, PL da devastação, lei da anistia e lei do veneno.Mas, se a transformação econômica é tão importante, por que não avançou? Acredito que a resposta passa pela prevalência de três ideias equivocadas que criam a ilusão de progresso mas não entregam bons resultados.A primeira ideia equivocada é a percepção de que a bioeconomia amazônica vai bem, avança a passos largos e em poucos anos ganhará a proeminência desejada. Essa impressão é alimentada por uma sequência infindável de anúncios efusivos, eventos, prêmios, novos fundos e iniciativas de fomento, incluindo incubadoras e aceleradoras com teses visionárias. A realidade, infelizmente, exige muito mais sobriedade.Nos últimos cinco anos eu tenho interagido de forma intensa e frequente com empresas e cooperativas ligadas aos negócios da floresta, incluindo aquelas que trabalham com açaí, cacau, café, castanha e pimenta do reino. O que descobri é que os empreendimentos viáveis, capazes de pagar suas próprias contas sem subsídios generosos do governo, são poucos, e, na sua maior parte, esses negócios são pequenos, frágeis, isolados, sem representação setorial nem capacidade de diálogo com órgãos governamentais. Não há nada errado em celebrar pequenas conquistas. O que atrapalha é quando a celebração vira cortina de fumaça. PublicidadeA segunda ideia equivocada é a crença bastante prevalente de que os instrumentos de fomento consagrados dão conta da missão. Não dão, pois não são bem adaptados para o problema que precisam enfrentar, e não costumam ser implementados com o discernimento necessário. CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO que impede o sucesso dos negócios da floresta não é a falta de isenções fiscais, linhas de crédito, editais, ou iniciativas de comércio justo, mas a hostilidade crônica do ambiente onde eles operam, criada pela escassez de bens públicos, custos de transação elevados, regras que atrapalham sem proteger, escassez de tecnologias apropriadas e condições desiguais de acesso a mercados. São problemas relativamente específicos porém compartilhados e, por isso, exigem soluções deliberadas. A terceira ideia equivocada é a insistência de que só fábricas e chaminés trazem prosperidade. As fábricas foram essenciais como escada rolante do desenvolvimento durante o século 20 e continuam sendo importantes, mas o mundo mudou. A ascensão da China e a crescente automação de processos industriais reduz a capacidade das indústrias convencionais de criar empregos no volume que serão necessários. Pior, insistir na industrialização como único caminho para a prosperidade mantém invisível um dos recursos mais valiosos e subaproveitados da Amazônia, que são os 85 milhões de hectares de terras que foram desmatadas no passado e hoje funcionam em grande parte como pasto. Uma intensificação modesta da pecuária poderia liberar 37 milhões de hectares para outros usos, sem prejuízo do crescimento da produção de carne. Vale dizer, são áreas que já têm acesso razoável a estradas, e onde melhorias na infraestrutura não provocariam desmatamento adicional, pois grande parte já foi desmatada.PublicidadePor isso, eu tenho defendido a restauração produtiva das áreas já desmatadas, aquilo que o Amazônia 2030 chama de “rematamento”, como estratégia de desenvolvimento regional para a Amazônia. Não é tarefa fácil, mas outros países têm demonstrado ter a ambição que precisamos. Por exemplo, a China criou 16 milhões de hectares líquidos de florestas entre 2015 e 2025. O Vietnã criou 5 milhões de hectares entre 1990 e 2020. E 11 países africanos restauraram 20 milhões de hectares entre 2007 e 2020, em uma faixa que vai do Senegal à Etiópia. O esforço custou US$ 2,5 bilhões e gerou 350 mil empregos.Leia tambémSozinhas, as empresas da floresta não vão longeOs mistérios do crédito rural na AmazôniaO que não sabemos sobre os negócios verdes da AmazôniaA Amazônia está diante de uma oportunidade desse mesmo porte e natureza, e o primeiro passo para aproveitá-la é entender com mais precisão onde estamos, onde queremos ir, e o que precisamos para chegar lá. O segundo é montar uma coalizão maior do que a que venceu a primeira batalha. Por muitas décadas, os seringueiros não eram aliados dos povos indígenas, muito pelo contrário. Apesar disso, conseguiram superar suas diferenças e liderar um esforço de conservação com sucesso invejável. A recuperação das áreas abertas vai exigir movimento semelhante, com elenco ampliado para incluir os membros mais esclarecidos da elite econômica e política regional.PublicidadeO Brasil já mostrou que sabe defender a floresta em pé. Falta mostrar que sabe utilizar melhor as terras de onde a floresta não deveria ter sido tirada. Vale ler tambémReforma tributária: brasileiro se assusta com alíquota de 28%, mas já paga imposto maiorSaída menos dolorosa para o BRB é a separação de ativos e a venda do banco, como ocorreu nos anos 90A disparada assustadora do desastre fiscal brasileiro