É tentador procurar os culpados pela desigualdade. Em um país no qual poucos concentram grande parte da riqueza, as elites, especialmente aquelas de riqueza ancestral e de longa linhagem, costumam aparecer como uma das candidatas naturais. Se alguns têm muito e tantos têm tão pouco, parece intuitivo concluir que os primeiros são responsáveis pela situação dos segundos.
Apesar de essa conclusão aquecer muitos corações, ela não leva em consideração nuances relevantes.
Uma pessoa pode nascer em uma família muito rica, daquelas tradicionalíssimas famílias brasileiras cuja riqueza foi acumulada ao longo de gerações, receber diversas heranças materiais e imateriais e chegar à vida adulta ocupando uma posição extremamente privilegiada sem ter participado da criação das instituições que contribuíram para produzir e preservar essas vantagens.
Nesse sentido, o pertencimento a uma elite hereditária, por si só, não constitui uma culpa. Ninguém escolhe a família em que nasce. Se isso vale para quem nasce na pobreza, vale também para quem nasce no topo. Ser beneficiário de uma estrutura desigual não significa necessariamente ter sido seu arquiteto.
Contudo, a discussão fica ainda mais interessante agora.






