Marcelo Mendonça, gerente de vendas de Oncologia da farmacêutica americana MSD, está curtindo hoje seu primeiro Dia dos Pais, pouco após voltar de uma licença-paternidade de 84 dias. Para o executivo, de 44 anos, o período ao lado da primeira filha, Helena, de três meses, e da esposa, Aidê Caroline, de 37 anos, foi fundamental. — Ali você entende o que é se tornar pai, o que é estar presente, se fazer presente. E não apenas para criança, porque o bebê acorda, mama e dorme, mas a mãe, não, é diferente. Poder atravessar este momento junto com a esposa foi muito gratificante — conta o executivo. Ainda que os 20 dias fiquem bem abaixo dos quatro a seis meses de licença-maternidade, a nova regra pode ser um primeiro passo para mudar a cultura de participação dos pais nos cuidados com os filhos, dizem especialistas. Impulso do salário-paternidade, pago pelo INSS Um impulso virá da criação de um benefício do INSS, o salário-paternidade, segundo especialistas. Além disso, sem regulamentação, os cinco dias são garantidos, desde 1988, na forma de faltas justificadas. Com a nova lei, a licença será um direito trabalhista. Isso deve inibir os homens que, eventualmente, não informem à empresa sobre o filho e as firmas que criem obstáculos ao afastamento. Por isso, a nova licença poderá colocar milhares de pais em casa já ano que vem. O número exato é difícil saber. Ninguém sabe quantos tiram licença hoje Atualmente, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) não sabe quantos tiram licença-paternidade. Um relatório de 2024 da pasta estima que 833 mil trabalhadores poderiam usufruir do novo benefício, a cada ano. O projeto de lei da regulamentação estimou um gasto de R$ 3,3 bilhões com o novo benefício em 2027, mas o INSS não cravou uma previsão orçamentária, conforme o Ministério da Previdência Social. — É razoável esperar que um número muito maior de pais passe a usufruir da licença-paternidade com a nova legislação — diz Ana Luiza de Holanda Barbosa, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e integrante da Sociedade de Economia da Família e do Gênero (GeFam). A pesquisadora é autora principal de um artigo intitulado “Dados sobre a falta de dados da licença-paternidade no Brasil”, publicado ano passado. Dois efeitos positivos Segundo especialistas, defensores da regulamentação e pais que, como Mendonça, tiveram licenças ampliadas, os benefícios da licença-paternidade maior têm duas dimensões principais: a formação infantil; e a igualdade entre homens e mulheres no trabalho. — Consegui ver várias “primeiras coisas” do meu filho e, se não pudesse estar com ele, não teria essas memórias — conta Rafael da Rocha Jorge, especialista de Prevenção a Fraude da empresa de cosméticos O Boticário, pai do Guilherme, de quase 6 meses. Rafael da Rocha Jorge, da empresa de cosméticos O Boticário, com Giulia e Guilherme, de quase 6 meses — Foto: Esllin Granado/Arquivo pessoal Jorge acabou de voltar de uma licença-paternidade de quatro meses e conta como foi a experiência: — Nesse tempo, consegui criar um vínculo emocional com o meu bebê, ficar com ele no colo, dar mamadeira, e essa é a forma com que o pai cria um vínculo, isso marca o desenvolvimento pessoal de uma pessoa e o recém-nascido precisa disso. James Heckman, Nobel de Economia, referência no cuidado na infância A referência é o trabalho do economista americano James Heckman, da Universidade de Chicago, diz Camila Bruzzi, diretora executiva, ao lado de Caroline Burle, da Coalizão Licença Paternidade (CoPai), movimento que incentiva a participação dos pais nos cuidados com os filhos. O acadêmico, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2000, demonstrou os impactos positivos da primeira infância na capacidade de aprendizagem e, portanto, da qualificação da mão de obra no longo prazo. — A importância da presença paterna no cuidado da primeira infância é fundamental, já comprovada cientificamente. O desenvolvimento infantil acontece 80% até os dois primeiros anos. A presença paterna interfere diretamente no desenvolvimento cognitivo, no desenvolvimento socioemocional e na autoestima das crianças — diz Camila. Segundo a diretora da CoPai, essa presença serve também de antídoto para a violência, pois a falta de referência paterna está associada à criminalidade e o modelo de masculinidade que afasta os homens do afeto favorece a agressividade. No mercado de trabalho, o problema é a 'penalidade da maternidade' Na dimensão do mercado de trabalho, a divisão dos cuidados com os filhos interfere no que ficou conhecido na academia como “penalidade da maternidade”, explica Cecilia Machado, economista-chefe do banco Bocom BBM e professora do Departamento de Economia da PUC-Rio, que estudou o tema em seu doutorado na Universidade Columbia, nos EUA. Nos últimos 50 anos, as mulheres avançaram na escolaridade e conquistaram o mercado de trabalho, exercendo todos os tipos de profissões, mas as desigualdades em relação aos homens, especialmente na remuneração, persistem. Agora, ressalta Cecilia, uma maior igualdade passa por políticas contra a “penalidade da maternidade”, ou seja, que atuem na divisão de tarefas em casa, e a licença-paternidade ampliada pode ser uma dela: — Quando ampliamos a licença-paternidade, as empresas e trabalhadores começam a praticar a mudança, as pessoas se organizam e isso começa a fazer parte da cultura corporativa. É um papel de normalizar o afastamento maior dos homens, o que ajuda a mudar as normas sociais. Entendendo a realidade das mulheres Executivos que tiraram licenças estendidas relatam que a experiência ajuda a entender as mulheres, seja na rotina do cuidado com os bebês, seja nos questionamentos sobre como período fora pode atrapalhar a carreira. Para Mendonça, da MSD, isso ajuda na relação profissional com as colegas. Mendonça, da MSD, com a filha Helena, de 3 meses, e a esposa Aidê Caroline, de 37 anos: licença maior ajudou a entender melhor a realidade das mulheres — Foto: Brenno Carvalho Guilherme Martins, CMO (diretor de marketing) da fabricante de bebidas Diageo no Brasil, de 41 anos, que tem três filhos — Bernardo, de 9 anos, Joaquim, de 6, e Stella, de 4 — e já tirou duas licenças de seis meses, vê em casa os efeitos da maternidade sobre a carreira das mulheres. A esposa dele, Renata, de 43 anos, também é executiva. — Nós nos conhecemos no trabalho. Na nossa primeira empresa, éramos pares. Aí, depois, cada foi fazer sua carreira. Hoje, ela está em nível igual ao meu, mas ela demorou mais — conta Martins. Martins, da fabricante de bebidas Diageo no Brasil, com a família, vê um 'abismo' entre a licença normal de cinco dia e a ampliada de seis meses, que pôde tirar duas vezes — Foto: Arquivo pessoal Para o executivo, há um “abismo” entre a experiência de tirar cinco dias e seis meses: — Cinco dias é um feriado, é sair da maternidade, chegar em casa, tomar um banho e voltar a trabalhar. Com seis meses, é um processo no qual dá para viver as noites em claro, dividir as responsabilidades, cuidar dos filhos mais velhos. Começamos a ver uma parte da rotina que para a maioria dos homens é invisível. 60 empresas vão além do básico; 115 apoiam coalizão Diageo, com seis meses, O Boticário, com quatro meses, e MSD, com 12 semanas, fazem parte de uma bolha de empresas que arcam elas mesmas com os custos da licença-paternidade estendida, antes mesmo da regulamentação e do benefício que será pago pelo INSS. A CoPai tem 115 signatários, entre entidades e companhias, e mapeou 60 empresas que oferecem um afastamento para os pais acima do que prevê a lei — com 28 dias ou mais; os 20 dias, além de patamar mínimo da regulamentação, já estão previstos no programa Empresa Cidadã. No topo da lista, 12 empresas oferecem pelo menos seis meses, como a Diageo e as farmacêuticas Novartis, Sanofi, Roche e Takeda. Também são signatárias da CoPai as empresas de pagamentos Visa e Mastercard e a petroleira Shell. Outras que oferecem licenças maiores são a empresa de cosméticos Natura e a gigante do comércio eletrônico Amazon, ambas com 40 dias. Licença de seis meses, em duas etapas Rafael Pianca, gerente sênior de Excelência de Acesso da Novartis, terá uma licença de seis meses por causa do nascimento da segunda filha, Manu, de 4 meses. Já foram dois meses com a recém-nascida. Os quatro meses restantes o executivo tirará quando a esposa, Karina, encerrar a licença-maternidade e voltar ao trabalho. A experiência é incomparável com o nascimento da primogênita, Isa, de 3 anos, quando a licença foi de 20 dias — a firma em que ele trabalhava na época aderiu ao Empresa Cidadã. Rafael Pianca, da Novartis, com a família:licença maior ajuda também a lidar com irmã mais velha — Foto: Arquivo pessoal — Nesses dois meses, acompanhei as trocas de fralda, as noites sem dormir, a amamentação. Costumo dizer que, como pai, não estamos ali para ajudar, mas para compartilhar as tarefas — conta Pianca, lembrando que o período foi importante também para dar atenção à filha mais velha. Bruno Abreu, que trabalha na parte de finanças da Amazon e passou por duas licenças-paternidade — no nascimento de Daniel, em 2023, e, neste ano, com a chegada de Helena, ambas de seis semanas —, também reforça a importância do apoio aos irmãos mais velhos. Bruno Abreu, da Amazon, tirou duas licenças-paternidade de seis semanas — Foto: Arquivo pessoal — Quando minha caçula nasceu, sinto que a licença foi um apoio ainda maior, porque pude cuidar do meu filho mais velho, levá-lo à escola, passear com ele — diz Abreu. Empresas que estão à frente veem resultados positivos As companhias que estão à frente do que prevê a legislação relatam resultados positivos. — A licença não é apenas um benefício corporativo, mas um suporte para os cuidadores de todas as configurações familiares já que os primeiros dias são cruciais para criação de vínculo. É importante olhar também a jornada do funcionário desde o momento do nascimento até a volta ao trabalho. Tirar a licença aumenta a confiança entre a empresa e os funcionários — afirma a líder de recursos humanos da Amazon no Brasil, Cristina Mota. Segundo Aline Almeida, gerente de Pessoas e Organização da Novartis no Brasil, o benefício serve tanto para atrair profissionais quando abre uma vaga quanto para reter os empregados, além de aumentar o engajamento dos funcionários no trabalho. Para Patricia Bobbato, diretora de Cultura, Desenvolvimento, DE&I e Bem-Estar da Natura, “a licença estendida ajuda a consolidar um ambiente de acolhimento e segurança psicológica dentro da empresa”. No mercado como um todo, realidade é outra O conjunto do mercado de trabalho brasileiro, porém, está longe dessa bolha. O profissional de TI Fabio Amparo, por exemplo, não conseguiu tirar mais de cinco dias em duas ocasiões, em 2018 e 2021, quando trabalhava em uma montadora de caminhões na Região Metropolitana de São Paulo, que não participa do Empresa Cidadã — o programa oferece deduções de tributos para firmas que estendam as licenças. A primeira vez foi quando nasceu seu segundo filho, Noah, hoje com 7 anos. A segunda vez, quando chegou sua terceira filha, Cora, de 4 anos. A primogênita, Ludmilla, tem 11 anos. O profissional de TI Fabio Amparo, com a família, não conseguiu tirar mais de cinco dias de licença-paternidade em duas ocasiões — Foto: Arquivo pessoal — Recebi a segunda negativa com o mesmo tipo de desinteresse. De acordo com a empresa, os benefícios do Empresa Cidadã não valiam a pena. O pior foi ouvir o seguinte questionamento: “imagina se todos os homens da linha de produção decidissem pegar licença de 20 dias?”. É um comentário que reflete o pensamento empresarial, além de um comentário muito machista. A mudança desse tipo de pensamento ainda é um grande obstáculo — diz Amparo, que já teve um podcast sobre paternidade e hoje trabalha numa consultoria multinacional e usa as redes sociais para debater o tema. O total de empresas participantes do Empresa Cidadã é de 9 mil firmas, segundo a Receita Federal. A VR, prestadora serviços de recursos humanos, registrou quase 3 mil licenças-paternidade em sua plataforma RH Digital, de janeiro a julho. Desse total, 76% se afastaram somente pelo mínimo de cinco dias. O Infojobs, plataforma de anúncios de emprego, registrou, no primeiro trimestre, 2 mil ofertas de vagas que mencionam licença-paternidade ou parental ampliada no pacote de benefícios, mas isso é apenas 1,1% do total. Tamanho da empresa faz diferença Segundo Willian Tadeu Gil, diretor-executivo de pessoas, jurídico e governança corporativa da VR, o porte é o principal fator que explica a adesão das empresas que usam o RH Digital a licenças maiores. — Em diversos temas relacionados a benefícios, o porte é determinante. Por isso, a transição no aumento da licença em lei ajudará na adequação das empresas — diz Gil, que avalia positivamente a experiência da VR como Empresa Cidadã, com afastamento de 20 dias para os pais. Alex Lopes, de 40 anos, superintendente da VR, acaba de voltar da licença de 20 dias para cuidar de Victor, de 2 meses. Ele e a esposa, Michelle, de 40 anos, ainda têm Arthur, de 4 anos. Nos dois casos, Lopes tirou 20 dias, e o período maior foi fundamental, especialmente porque o caçula ficou uns dias a mais na maternidade, conta o executivo: — Se fosse uma licença usual de cinco dias, já estaria chegando ao trabalho antes de o Victor chegar em casa. Obstáculos para a mudança Executivos de RH das empresas que estão mais avançadas nas políticas de licenças relatam ter encontrado os seguintes obstáculos, ao colocar políticas diferenciadas de licença-paternidade em prática: Aumento do custo com mão de obra;Necessidade de reorganização de processos, como preparar as equipes para ficarem desfalcadas mais frequentemente; e Resistência cultural dos empregados. — Alguns gestores apresentaram resistência, questionando: “como os caras vão ficar fora só porque o filho nasceu”? — conta Elisa Mendonza, diretora de RH da MSD, lembrando o início da implantação da política de 12 semanas de licença-paternidade, há cerca de cinco anos. Segundo a executiva, a resistência partiu, principalmente, de gestores mais velhos, mas também houve pé atrás por parte dos primeiros beneficiários, que demonstraram receio de aderir à licença maior. A MSD vem trabalhando no convencimento dos beneficiários e, hoje, a adesão está generalizada. Melhor do que nos vizinhos da América Latina Apesar da resistência cultural, Elisa, que já trabalhou nas unidades do México, do Peru e da Colômbia, vê o tema da divisão de cuidados com os filhos mais avançada no Brasil do que nos pares latino-americanos. No mundo, os países europeus, com destaque para os nórdicos, são considerados os mais avançados em termos de licença-paternidade, enquanto os asiáticos, com destaque para Coreia do Sul e Japão, ficam atrás até mesmo da América Latina. O problema da informalidade Outro obstáculo é a informalidade. Pouco menos de 40% de todos os ocupados no Brasil são informais, segundo o IBGE, e ficarão de fora do novo direito trabalhista. Para incentivar a divisão do cuidado com os filhos entre homens e mulheres nesse público, é importante também reforçar a oferta de creches públicas, segundo Cecilia, da PUC-Rio. Camila, da CoPai, sugere ainda melhorar o treinamento dos profissionais da área de saúde para incentivar a atuação dos pais e incluir a figura paterna em campanhas sobre o cuidado de crianças, como as de vacinação. *Estagiária, sob a supervisão de Vinicius Neder
Dia dos Pais: nova licença-paternidade pode ajudar a mudar a dinâmica dos lares
Benefício pelo INSS começa no ano que vem e chegará a 20 dias em 2029. Divisão de tarefas garante mais apoio no cuidado do bebê e contribui para progressão da mulher na carreira









