Ao completar 101 anos, O GLOBO apresenta a lista “101 brasileiros que transformam o futuro”, reunindo perfis de indivíduos que ajudam a antecipar o amanhã 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O casal Camila Bruzzi e Daniel Mazini esteve à frente da luta pela ampliação da licença paternidade — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/07/2026 - 21:50 Casal luta por licença-paternidade de 20 dias no Brasil até 2029 Camila Bruzzi e Daniel Mazini são destaques na luta pela ampliação da licença-paternidade no Brasil, promovendo uma cultura de cuidado compartilhado entre pais e mães. O casal, parte da lista "101 brasileiros que transformam o futuro" do jornal O GLOBO, trabalha pela implementação gradual da licença de 20 dias até 2029. A iniciativa visa reduzir desigualdades de gênero e reforçar o papel paterno no cuidado dos filhos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O casal Camila Bruzzi, de 49 anos, e Daniel Mazini, de 48, teve experiências distintas no nascimento dos filhos. Quando a mais velha chegou, a licença-paternidade era de 5 dias. Daniel precisou negociar um tempo trabalhando em home office para conseguir acompanhar de perto as primeiras semanas de Sophia, hoje com 10 anos. Três anos depois, quando nasceu Felipe, a empresa já havia adotado seis semanas de licença-paternidade. Foi possível dividir esse período e, quando Camila voltou ao trabalho, Daniel passou três semanas com o filho, cuidando inclusive da adaptação na creche. — Foi aí que entendi uma coisa: os esforços de redução da desigualdade de gênero focados no empoderamento das mulheres são importantes, mas nunca vamos alcançar equidade enquanto os homens não participarem ativamente de uma parcela relevante do cuidado dos filhos — diz Camila. A virada Quando veio a pandemia, a rotina em casa com duas crianças pequenas pesou mais para o lado de Camila: — Foi o meu mundo que desabou. Minha performance, minha carreira foram impactadas — lembra ela. Camila trocou 20 anos no mundo corporativo pela atuação como empreendedora social. É cofundadora e diretora-executiva da Coalizão Pai Presente, a CoPai. Daniel, hoje vice-presidente executivo da Wellhub, é embaixador da organização. Os dois trabalharam pela aprovação da lei que amplia a licença-paternidade para 20 dias, a partir de 2029. — A CoPai nasceu meio que dentro de casa. Sempre tivemos, juntos, a vontade de ver a licença-paternidade ampliada aqui no Brasil. Na experiência que vivemos no exterior, essa licença é comum, e o papel do homem na criação dos filhos é muito maior do que aquele com o qual crescemos — conta Daniel. Camila observa que os primeiros cinco dias após o nascimento “não representam quase nada”. O leite para a maioria das mães ainda não “desceu”, as cólicas do bebê ainda não começaram, e a exaustão das noites maldormidas está só no início. A maioria das brasileiras enfrenta esse período de forma solitária, sem recursos para contratar ajuda externa ou o apoio de parentes, como as avós. — O período mais delicado da chegada de um bebê deveria ser medido, no mínimo, pela duração do puerpério, de seis a oito semanas, quando o bebê exige cuidado e atenção constantes, e a mãe está com o corpo e o emocional em plena reorganização hormonal. Na minha experiência, ter meu marido em casa nas primeiras semanas foi fundamental, principalmente por causa da amamentação, um dos processos mais exigentes e menos falados da maternidade. Batalha antiga A luta pela ampliação da licença-paternidade é antiga no país. Em 1967, era concedido apenas um dia. A Constituição de 1988 aumentou o benefício para 5 dias e deixou a cargo do Congresso legislar sobre o tempo ideal. A lei levaria quase 40 anos para avançar, depois de enfrentar resistência e sofrer modificações. O período de afastamento paterno do trabalho proposto inicialmente acabou reduzido de 30 para 20 dias. Ainda assim, o aumento será gradual: 10 dias, a partir do ano que vem; 15 dias, em 2028; e 20 dias a partir de 2029. Quando o presidente Lula sancionou a nova lei, em 31 de março, Camila estava na solenidade. — Mais importante ainda do que esses 20 dias é o efeito de longo prazo. Estudos mostram que pais que se envolvem no cuidado do bebê logo nas primeiras semanas tendem a permanecer presentes na vida dos filhos ao longo dos anos, esse é o efeito que buscamos, muito mais valioso do que o tempo de licença isoladamente. E há também o valor simbólico: pela primeira vez, a lei brasileira reconhece o pai como cuidador, e não apenas como provedor — constata ela. Claudia Goldin, prêmio Nobel de Economia de 2023, mostrou que a principal causa da desigualdade de gênero no mercado de trabalho é a maternidade. Para Camila, uma política pública estruturante que promova o cuidado compartilhado é fundamental para corrigir essa distância. — Trabalhando em tecnologia, com populações mais jovens, primeiro na Amazon e agora na Wellhub, vejo que já é bem aceita a compreensão de que o papel do homem é muito mais completo do que o modelo histórico. As pessoas tiram licenças-paternidade mais longas com naturalidade, entendendo que as mulheres também passaram, por muitos anos, por licenças mais longas, e é hora dessa equidade começar a ser feita. Já quando você vai para ambientes com homens mais velhos, como é o caso da Câmara, ou para setores como o mercado financeiro e até startups mais tradicionais, percebo uma resistência maior — avalia Daniel. Ele reconhece que ainda existe a imagem do homem como o único provedor, que precisa voltar ao trabalho o mais rápido possível, mas lembra que a realidade atual é outra: no Brasil de hoje, as mulheres já são responsáveis pelo sustento de quase metade dos lares do país, segundo o Censo do IBGE. Próximas ações Aprovada a lei, a CoPai vai se dedicar agora a construir uma cultura de cuidado compartilhado no Brasil. A Coalizão buscará parcerias com marcas, influenciadores e celebridades para chamar a atenção para o cuidado dividido de verdade. — Imagino uma sociedade com relações mais saudáveis entre homens e mulheres, com menos sobrecarga, mais compreensão e mais empatia. Imagino crianças com mais ferramentas emocionais, mais segurança, mais autoconfiança. Uma geração mais preparada para os desafios da vida, e com mais condições de reduzir as desigualdades sociais do nosso país. Espero, sobretudo, uma sociedade menos violenta, formada por meninos que cresceram com uma referência de paternidade cuidadora, e não ausente ou meramente “provedora”, mas que não proveu nenhum afeto — diz Camila, também cofundadora do Movimento Desconecta, que combate o uso excessivo e precoce de telas e redes sociais pelas crianças.