A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, é o último lance de um processo de tentativa de subordinação do Brasil aos Estados Unidos que já vem se desenhando desde julho do ano passado. Nesse contexto, a relação entre Brasília e a Casa Branca deixou de operar sob as regras que orientaram a diplomacia americana por muitas décadas.PUBLICIDADEA avaliação é de Octavio Amorim Neto, cientista político da EBAPE-FGV, para quem o episódio "é seríssimo, muito grave", e, em última instância, poderia levar a uma ruptura das relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.Segundo Amorim, há precedentes históricos para o que vê como tentativa do governo Trump de intervir nas eleições brasileiras. Ele lembra que Washington interveio abertamente nas eleições italianas de 1948, condicionando a ajuda financeira do pós-guerra à Itália à derrota da Frente Popular Democrática apoiada pela União Soviética.Na América Latina, houve apoio político, militar e financeiro a diversos golpes e ditaduras, sendo o caso mais emblemático a derrubada de Allende por Pinochet no Chile em 1973. No final dos anos 70, no entanto, o presidente Jimmy Carter perseguiu uma agenda de direitos humanos, tendo conflitos inclusive com Geisel no Brasil. Mesmo o governo de direita de Reagan, que interveio em Granada e apoiou os Contras na Nicarágua (com direito ao escândalo Irã-Contras), nota Amorim Neto, tinha um discurso pró-disseminação da democracia.O que muda agora, segundo Amorim Neto, é o caráter do trumpismo em sua segunda edição. No primeiro mandato, Trump ainda convivia com um núcleo republicano tradicionalista. Hoje, o governo é "MAGA puro", sem as concessões que mesmo um presidente de direita como Reagan fazia à promoção da democracia. O melhor exemplo é a intervenção na Venezuela, com a operação radical de sequestrar o presidente Nicolás Maduro, deixando no seu lugar Delcy Rodrigues, sem planos de restabelecer a democracia. Em seus pronunciamentos sobre o governo e o petróleo venezuelanos, Trump e seu governo usam uma linguagem explícita de imperialistas colonizadores.PublicidadeAmorim Neto assinala que outra faceta de Trump, que se faz sentir na sua política externa, é o caráter errático - como se vê na guerra do Irã, em que num dia ele elogia as lideranças iranianas engajadas na negociação, para no dia seguinte ameaçar o país de aniquilamento.No caso do Brasil, a imposição inicial de tarifas abusivas foi seguida por dois encontros entre Lula e Trump em que houve "boa química". Agora, porém, a agenda de intervenção e de tentativa de subordinação da América Latina aos desígnios da Casa Branca parece ter se imposto mais fortemente.Para o cientista político, não se trata de polarização, termo que considera impreciso, mas de radicalização da direita americana, com repercussão direta sobre o Brasil. A isso se soma a interferência de Javier Milei, que atacou o governo brasileiro na convenção do PL em São Paulo e voltou a fazê-lo nesta semana, por rádio, na Argentina.Amorim Neto considera que o Itamaraty vem reagindo corretamente à ofensiva externa da extrema-direita. Ele elogia em particular a decisão de 2023 do chanceler Mauro Vieira de retomar a exigência de visto para americanos -- extinta pelo governo Bolsonaro sem reciprocidade dos Estados Unidos. Isso possibilitou agora a negativa de visto aos dois funcionários americanos que viriam ao Brasil para lançar dúvidas infundadas sobre o sistema eleitoral brasileiro.Em relação à demora do Brasil na concessão de agrément para Daniel Perez, nomeado por Trump para ser embaixador no Brasil, o cientista político comenta que analisar e até eventualmente negar o agrément faz parte da diplomacia, sendo a pressão americana (com o cancelamento do visto da embaixadora brasileira) injustificada. Ele acrescenta que Perez é um político local da Flórida, sem carreira diplomática e ligado a Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos.PublicidadeO cientista político assinala que o Brasil teria mais espaço para resistir à ofensiva externa da extrema-direita se não fosse o fato de que o bolsonarismo, protagonista do jogo eleitoral, se alinha totalmente a Trump. Ainda assim, para Amorim Neto, o Brasil, como maior potência latino-americana, tem uma capacidade ímpar de resistir à pressão trumpista.PUBLICIDADEEntre os principais países latino-americanos, o presidente americano já avançou na Venezuela, Argentina e Colômbia (onde o populista de direita Abelardo de Espriella venceu a recente eleição). No México, a presidente de esquerda Claudia Sheinbaum é limitada na sua capacidade de se opor a Trump pelo fato de o país ter a maior parte de suas exportações direcionadas aos Estados Unidos."Sobra o Brasil como única potência latino-americana em melhores condições de recusar a subordinação a Washington", diz Amorim.Ele reforça que fricções entre os dois países não são inéditas, como o atrito no governo Reagan em torno da política de informática e o episódio de espionagem americana contra Dilma Rousseff no governo Obama. Mas, segundo o cientista político, esses conflitos foram superados porque havia razoabilidade dos dois lados. Hoje, argumenta, essa razoabilidade inexiste do lado americano.A aposta de Trump e Rubio, na leitura de Amorim Neto, é apresentar ao eleitorado americano em novembro um mapa da América Latina majoritariamente subordinada à Casa Branca. E o desfecho dessa disputa, avalia, só será conhecido no segundo turno da eleição presidencial brasileira.PublicidadeFernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/8/2026, quarta-feira.Vale ler tambémO agro brasileiro já produz em escala. Agora pode ir além Reforma tributária: Qual será a alíquota do IBS e da CBS? O mercado já fez suas estimativasDos bytes aos átomos
Opinião | O jogo de Trump para subordinar a América Latina a Washington
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