Trump tenta mais uma vez favorecer seus aliados ideológicos — e Lula não se esforça para baixar temperatura 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A embaixadora Maria Luiza Viotti — Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado O cancelamento do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, é o episódio mais recente na preocupante escalada diplomática entre Brasil e Estados Unidos. A justificativa alegada pela Casa Branca foi a demora do Itamaraty em aprovar o político republicano Daniel Perez, da Flórida, para o cargo de embaixador em Brasília, vago desde o início do atual governo Donald Trump. O nome de Perez foi submetido ao Senado americano sem que, como é praxe, o governo brasileiro tivesse dado seu aval — ou, no jargão diplomático, concedido agrément. É verdade que o Brasil poderia ter sido mais ágil para cumprir a formalidade, mas isso não justifica a reação americana. O próprio Departamento de Estado por vezes leva mais de dois meses para dar sinal positivo a um embaixador. Desde o tarifaço de julho do ano passado, Trump não tem se furtado a usar armas diplomáticas para tentar influir na política interna brasileira e favorecer seus aliados ideológicos. Na ocasião, o pretexto para impor ao Brasil as maiores tarifas do planeta foi o processo em curso contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Menos de um mês depois, o governo americano decretou sanções duríssimas contra autoridades brasileiras com base na Lei Magnitsky e impôs restrições à comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da ONU. Em seguida, depois de encontro na ONU, Trump e Lula ensaiaram um entendimento. A Casa Branca passou a ver no Brasil uma resposta para a dependência americana de terras-raras chinesas. As negociações, porém, não tiveram o fim esperado, porque o governo brasileiro se negou a dar o tratamento preferencial almejado pelos americanos. A relação com Lula azedou — e Trump voltou à carga. Recebeu o senador Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo no Salão Oval, o governo americano classificou como terroristas as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), e há poucas semanas baixou um segundo tarifaço sob pretextos descabidos. Até agora, não houve acordo nem recuo. Ciente do benefício eleitoral do confronto com Trump, Lula não tem feito esforços para baixar a temperatura. Em março, cancelou o visto de Darren Beattie, conselheiro do Departamento de Estado para políticas relacionadas ao Brasil que planejava visitar Bolsonaro. Em julho, negou vistos a uma delegação americana que tinha intenção de visitar o Brasil, sob o argumento de que o objetivo era contestar a integridade do sistema eleitoral. Sob Donald Trump, os Estados Unidos deixaram de lado os ritos da diplomacia e passaram a agir apenas com base em preferências ideológicas. O confronto não faz bem a ninguém. Não é do interesse nacional a escalada da crise entre os dois países. Brasil e Estados Unidos são democracias vibrantes, com laços históricos sólidos e enorme potencial para estreitar relações. Passada a eleição, o vencedor, seja quem for, terá de buscar a acomodação.