Ao hostilizar o Itamaraty, Washington esvazia a eficácia de suas próprias ambições para o continente 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. — Foto: Ricardo Stuckert / PR A crise diplomática em torno da demora do governo brasileiro em conceder agrément ao indicado pelos Estados Unidos para assumir a Missão Diplomática em Brasília e da alteração do visto da embaixadora do Brasil em Washington deveria ter sido evitada por meio do diálogo e da confiança mútua. No entanto, a falta desses dois ingredientes fundamentais no relacionamento diplomático nos últimos anos tem gerado situações sem precedentes . Os dois países construíram uma parceria que vem moldando as relações hemisféricas com o pan-americanismo e, posteriormente, com o sistema interamericano. Mesmo em momentos de divergências ideológicas ou disputas comerciais, os canais institucionais entre Brasil e Estados Unidos sempre foram preservados pelas duas maiores democracias e economias das Américas. O Brasil não é apenas um vizinho geográfico, mas um aliado histórico essencial à segurança hemisférica, à cooperação científica, espacial e energética. Tratar um parceiro dessa magnitude com o improviso de tarifaços ao arrepio do sistema multilateral de comércio e no atropelo de ritos jurídicos internacionais sinaliza que o atual governo americano coloca conveniências políticas domésticas de curto prazo acima de alianças estratégicas duradouras. Na prática diplomática, a cortesia e a reciprocidade são as engrenagens que evitam conflitos. A decisão unilateral de revogar o visto da embaixadora como forma de retaliar e coagir quebra a blindagem técnica que os chefes de missão tradicionalmente possuem para manter o diálogo aberto, mesmo diante de crises severas. Ao tentar emparedar o governo brasileiro por meio da intimidação, a atual chancelaria americana ignora que governos passam, mas o Estado brasileiro e suas instituições permanecem. O ressentimento gerado por pressões diplomáticas injustificadas tende a deixar sequelas profundas, afastando o Brasil de iniciativas conjuntas e empurrando o país a diversificar ainda mais suas parcerias globais. Diante desse cenário complexo, o apego do Brasil à legalidade internacional e à consciência jurídica continua sendo a resposta mais firme e digna contra a perda de civilidade nas relações internacionais. Além de maior economia, o Brasil é a nação geograficamente mais estratégica da América do Sul, estabilizadora natural de crises regionais. Ao hostilizar o Itamaraty, Washington esvazia a eficácia de suas próprias ambições para o continente. Ao empurrar o Brasil para uma postura de autodefesa jurídica e comercial por meio de tarifas e retaliação de vistos, o Departamento de Estado cria um vácuo político. Esse isolamento compromete a parceria histórica entre os dois países e precisa ser revertido em nome de princípios e valores comuns fundados no Direito Internacional e na confiança mútua. A condição para tanto num mundo civilizado é o respeito aos tratados e convenções internacionais firmados livremente pelos dois países. A tentativa de implementar uma política externa baseada na coerção e no fato consumado, sem dialogar com o ator mais robusto e estável do continente, transforma a estratégia hemisférica de Trump num plano teoricamente frágil e inexequível. A intimidação estimula o nacionalismo estratégico e alimenta a aversão a um parceiro histórico, que lutou com os Estados Unidos em duas guerras mundiais e com o qual Washington registra um dos maiores superávits no comércio de bens e serviços, além de uma parceria industrial secular que poderá crescer e expandir na nova economia digital em benefício mútuo. *Sérgio E. Moreira Lima, embaixador de carreira e advogado, é presidente do Conselho da Sociedade Brasileira de Direito Internacional
É preciso restabelecer a confiança entre Brasil e EUA
Ao hostilizar o Itamaraty, Washington esvazia a eficácia de suas próprias ambições para o continente









