Pela primeira vez desde que Infantino assumiu a presidência da Fifa, em 2016, começam a surgir nomes dispostos a enfrentá-lo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Infantino, presidente da Fifa — Foto: Alfredo ESTRELLA / AFP O mapa político do futebol mudou completamente depois que Infantino impulsionou a terceirização da exploração dos direitos comerciais das principais competições organizadas pela Fifa, por meio da criação da empresa FIFA Forward Enterprise (FFE): as Copas do Mundo masculina e feminina e o Mundial de Clubes. A cada uma das federações foi oferecido o valor de US$ 20 milhões (R$ 101 milhões), o dobro do que estava previsto para receber nos quatro anos seguintes, financiados em grande parte com os recursos arrecadados pela Fifa durante o ciclo de 2023 a 2026, impulsionado quase integralmente pela Copa do Mundo que acabara de terminar. O prazo para aceitar a proposta era 19 de setembro. No entanto, a maioria das federações se manifestou nas horas seguintes ao anúncio e nenhuma declarou apoio: ou rejeitou abertamente a proposta ou preferiu manter uma posição neutra. Além de ter sido classificada como uma iniciativa "sem consulta prévia", a proposta previa a participação da Thrive Eternal, um fundo criado por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro de Donald Trump. Segundo informações divulgadas, o próprio Infantino pretendia assumir como CEO da nova empresa a partir de 2031, após o término de um eventual terceiro mandato à frente da Fifa, com um salário superior a 30 milhões de euros por ano. "Chegou o momento de realizar uma revisão completa e rigorosa da liderança e da governança da Fifa para garantir que o futebol mundial seja administrado com transparência, em benefício das 211 federações nacionais e com a gestão de longo prazo do esporte como prioridade", escreveu, na segunda-feira, a Federação Inglesa, a primeira grande potência do futebol a se posicionar publicamente contra o dirigente ítalo-suíço. Até o surgimento da polêmica, Inglaterra, País de Gales, Suécia e Sérvia haviam enviado cartas de apoio à candidatura de Infantino para a eleição do ano seguinte. A crise também atingiu o círculo mais próximo de Infantino. Carlos Cordeiro, principal assessor do presidente, apresentou sua renúncia na sexta-feira e criticou a entrada de capital privado no projeto. Principal assessor de Infantino, Carlos Cordeiro deixa cargo em protesto contra plano de vender participação na Copa — Foto: Jim WATSON / AFP A Fifa é composta por 211 federações nacionais, organizadas em seis confederações continentais: Conmebol (América do Sul);UEFA (Europa);Concacaf (América do Norte, Central e Caribe);AFC (Ásia);CAF (África);OFC (Oceania). A Uefa, que reúne 55 votos e representa os campeões de sete das últimas dez Copas do Mundo masculinas, foi a primeira a contestar o projeto. Classificou a iniciativa como "inadmissível", ameaçou boicotar as competições organizadas pela Fifa e agora avalia adotar medidas judiciais contra a entidade. Aleksander Ceferin (à direita), da Uefa, ao lado de Gianni Infantino, da Fifa — Foto: Reprodução/Instagram A Concacaf, com 41 associações e representando os três países-sede da última Copa do Mundo — Estados Unidos, México e Canadá —, manifestou "profunda preocupação" com a falta de transparência, os prazos e o processo de aprovação, pedindo a suspensão da iniciativa. A AFC, com 46 votos, inicialmente criticou a ausência de consultas e, posteriormente, alinhou-se à Uefa e à Concacaf. A África, com 54 associações, adotou uma postura mais cautelosa, e vários de seus dirigentes permaneceram ao lado de Infantino. A Conmebol, com dez votos, também evitou romper com o presidente da Fifa, embora tenha solicitado publicamente mais esclarecimentos antes de assumir uma posição conjunta. Em meio à rebelião, esse silêncio foi interpretado por muitos como um gesto de apoio a Infantino, mesmo diante do risco de ser politicamente prejudicada junto com ele. A OFC, representando outras 11 associações, adotou uma postura semelhante. Nas eleições da Fifa são necessários 106 votos para alcançar a maioria. Os continentes nem sempre votam de forma unificada. Na África, por exemplo, Marrocos, Egito e Catar permaneceram fiéis a Infantino, enquanto outras associações estariam mais próximas da posição defendida pela Uefa. Ainda assim, são raros os casos em que uma federação rompe com a orientação de sua própria confederação. Somadas, Europa, Concacaf e Ásia reúnem 142 votos, o equivalente a 67% do colégio eleitoral. Infantino foi reeleito sem oposição em 2019, em Paris, e em 2023, em Kigali, Ruanda. Os estatutos da Fifa permitem que ele dispute um último mandato de quatro anos. No entanto, pela primeira vez desde que assumiu a presidência, em 2016, começam a surgir nomes dispostos a enfrentá-lo. Entre os possíveis candidatos estão: Victor Montagliani, canadense, presidente da Concacaf e atual vice-presidente da Fifa;Nasser Al-Khelaïfi, do Catar, presidente do Paris Saint-Germain e nome que teria o apoio da Uefa;Patrice Motsepe, empresário sul-africano e presidente da Confederação Africana de Futebol desde 2021. Também foi citado o dirigente europeu Dariusz Mioduski, advogado polonês e proprietário do Legia Varsóvia, embora sua candidatura ainda não conte com amplo consenso. O prazo final para o registro das candidaturas é 18 de novembro. Quatro meses depois, em Rabat, no Marrocos, as 211 federações voltarão a eleger o presidente da Fifa. "Não podemos continuar assim, com manobras secretas conduzidas em ritmo acelerado, organizadas por pessoas sem rosto e cujo interesse pelo esporte é questionável. Precisamos identificar os responsáveis e exigir que prestem contas", declarou a Uefa ao comemorar a decisão de Infantino de retirar o projeto. A Concacaf acrescentou: "Uma proposta dessa magnitude não chega tão longe por acaso. Ela reflete uma liderança que deixou de colocar o futebol em primeiro lugar. Chegou o momento de realizar uma revisão completa dessa liderança." Infantino, ex-secretário-geral da Uefa, chegou à presidência da Fifa em 2016 prometendo "restaurar a imagem da Fifa" e "tornar o futebol verdadeiramente mundial". Em parte, conseguiu cumprir esses objetivos, mas a concentração de poder ao longo de quase dez anos de gestão acabou criando um cenário de confronto com grande parte das federações nacionais. Neste momento, Infantino busca o apoio público de Donald Trump, a quem homenageou em dezembro do ano passado, durante o sorteio da Copa do Mundo, concedendo-lhe o Prêmio da Paz da Fifa por seu papel no tratado firmado entre a República Democrática do Congo e Ruanda e por seus "esforços" para alcançar um cessar-fogo entre Israel e Palestina, dois meses antes do início do conflito entre Estados Unidos e Irã. Infantino, presidente da Fifa, e Donald Trump, presidente dos EUA, com a taça da Copa do Mundo na final do torneio — Foto: Dan Mullan / Getty Images via AFP A proximidade entre ambos também ficou evidente durante a Copa do Mundo, quando, a pedido de Trump, Infantino concedeu um perdão disciplinar ao atacante norte-americano Folarin Balogun, expulso nas oitavas de final. Graças a essa decisão — inédita na história da Copa do Mundo —, o jogador pôde atuar contra a Bélgica, partida em que os Estados Unidos foram derrotados por 4 a 1. Balogun foi expulso pelo árbitro Raphael Claus — Foto: MICHAEL STEELE / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP Esse episódio, que provocou desconforto na Europa, apenas confirmou uma relação que já vinha se deteriorando. A Uefa vinha se afastando de Infantino por causa da expansão do calendário internacional, da concentração de poder dentro da Fifa e da crescente concorrência comercial entre a Copa do Mundo e competições como a Liga dos Campeões da Uefa (Champions League). Por tudo isso, o "Rei do Futebol", como Donald Trump apresentou Gianni Infantino ao mundo pouco mais de um ano antes, enfrenta hoje o maior desafio político desde que assumiu a presidência da Fifa e, pela primeira vez, já não tem sua permanência no poder garantida.
Da Copa do Mundo histórica à maior crise de seu mandato: o acordo que abalou o poder de Gianni Infantino
Pela primeira vez desde que Infantino assumiu a presidência da Fifa, em 2016, começam a surgir nomes dispostos a enfrentá-lo














