Potência, carga, flexibilidade, curtailment, fio, despacho, Tust, CDE, MMGD, LRCAP, GSF....Muitas siglas e palavras misteriosas; assim é o universo do setor elétrico. Se para os especialistas na área já é difícil acompanhar, imagino a vida do consumidor que paga contas cada vez mais elevadas sem saber por quê. PUBLICIDADEEssa roupagem “técnica” ajuda a encobrir erros do governo e os efeitos dos lobbies poderosos que dominam o setor. Fica tudo meio confuso e nebuloso. Chacrinha entenderia: a ideia é confundir, e não explicar.A cada passo mal dado, especialistas da área denunciam, revoltados, o aumento absurdo nas contas de energia, enquanto o governo se mantém indiferente. E, como a gente sabe, quem cala, consente. Mas, pelo track record do MME, talvez seja melhor deixar quieto.A quem os consumidores vão recorrer? Não existe governança no setor nem planejamento. Interesses difusos, de milhões de usuários de energia, não têm a força dos lobbies.Leia tambémTerra sem lei: falta de respeito ao próximo, às autoridades e às leis está por todos os lugaresLula 3 chegou, e lucro das estatais evaporou; neste ano, o prejuízo já é de quase R$ 6 bi até abrilE pior: o buraco é cada vez maior. Cada projeto de lei que vem para “consertar” a operação do setor elétrico se transforma num pesadelo.PublicidadeMas, desta vez, exageraram. O PL 5017, de 2019, já aprovado na Câmara, chegou ao Senado há poucos dias. Seu escopo original era bem simples e restrito: beneficiar a irrigação e o consumo humano. Na tramitação, recebeu pequenas emendas, sem fugir do tema. Mas, quando chegou na Comissão de Infraestrutura, o circo foi armado. Um relator foi indicado de última hora na mesma manhã da reunião. Com uma eficiência surpreendente, chegou para votação com um substitutivo de 20 páginas, feito em poucas horas, incorporando temas alheios ao projeto original. A quantidade de jabutis que o nobre relator incluiu surpreendeu até quem já está acostumado com as piruetas do Congresso. Em votação relâmpago, o relatório foi aprovado, numa reunião esvaziada.Os jabutis zumbis ressurgiram: 2,5 mil GW em térmicas a gás, onde não há gás, e quase 5 GW em PCHs. Ninguém se deu ao trabalho de fazer contas, mas a gente sabe quem vai pagar e quem vai ganhar. Uma desfaçatez que traz imenso prejuízo ao País e aos consumidores de energia. Resta a esperança de que novas comissões ou o plenário desfaçam essa excrescência.Cada projeto de lei que vem para “consertar” a operação do setor elétrico se transforma num pesadelo Foto: Marcello Casal Jr/Agência BrasilDizem que há coisas que só acontecem com o Botafogo: ganhar uma Libertadores com um homem a menos por 90 minutos e ainda marcar três gols. Nem Messi conseguiu tal feito.Mas há coisas que também só acontecem no setor elétrico: parece que faltou luz somente na sala da votação. Pode ter sido coincidência, mas um outro apagão com certeza aconteceu: o da moralidade e pudor.Publicidade
Opinião | Apagão de moralidade e pudor: consumidor sempre paga a conta dos jabutis no setor elétrico
Vaivém de regras do setor ajuda a encobrir erros do governo e os efeitos dos lobbies poderosos que dominam o segmento, resultado da falta de governança e planejamento










