Vídeos no TikTok, Instagram e WhatsApp distorceram decisão da Justiça espanhola e convenceram cerca de 60 mil pessoas de que a fronteira estava 'aberta' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Vídeos mostram invasão em massa de migrantes à cidade espanhola de Ceuta — Foto: Reprodução/X Uma campanha de desinformação nas redes sociais foi um dos principais fatores que impulsionaram a recente crise migratória em Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Dias antes da chegada de milhares de pessoas à fronteira, vídeos publicados no TikTok, Instagram, Facebook e em grupos de WhatsApp passaram a afirmar, falsamente, que a fronteira com a Espanha estava aberta e que qualquer migrante que alcançasse Ceuta pelo mar teria o direito de permanecer no país. A narrativa se espalhou rapidamente e levou cerca de 60 mil pessoas a se dirigirem à fronteira em apenas 48 horas, sobrecarregando uma cidade com pouco mais de 80 mil habitantes e provocando uma das maiores crises migratórias dos últimos anos na região. Entre os que decidiram tentar a travessia estava Ayoub El Abyad, marroquino de 16 anos. À agência Reuters, ele contou que resolveu viajar até Ceuta após assistir a vídeos nas redes sociais mostrando pessoas chegando às praias do enclave espanhol. — A migração é sobre melhorar as nossas vidas e, por isso, decidimos tentar atravessar a fronteira e confiar em Alá — afirmou, segundo o jronal português SiC Notícias. Vídeos mostram invasão em massa de migrantes à cidade espanhola de Ceuta — Foto: Reprodução/X Vídeos ensinavam como atravessar Além de sugerirem que a entrada na Espanha estava garantida, muitas publicações traziam instruções detalhadas sobre como realizar a travessia. Os vídeos indicavam os pontos considerados menos vigiados da fronteira, mostravam rotas para contornar o espigão de Tarajal e compartilhavam mapas com os trajetos mais utilizados. Em grupos nas redes sociais também surgiram anúncios oferecendo boias, equipamentos de mergulho e bolsas impermeáveis para proteger documentos e celulares durante o percurso. Hashtags como #Ceuta, #Fnideq, #Haraga, #Hraga e #Hijma passaram a concentrar milhares de vídeos e relatos sobre a travessia. Multidão tenta atravessar para a Espanha após falsos rumores de abertura da fronteira Uma das principais comunidades online era a Hrig Sebta — "Sebta" é o nome árabe de Ceuta e "hrig" significa "queimar os papéis", expressão utilizada para se referir à migração irregular. Segundo a imprensa espanhola, grupos semelhantes reuniam dezenas ou até centenas de milhares de seguidores antes de serem removidos das plataformas. Decisão judicial foi distorcida A origem da onda de desinformação foi uma decisão do Supremo Tribunal da Espanha, anunciada em 8 de julho. A Corte determinou que migrantes interceptados no mar nas proximidades de Ceuta e Melilla não poderiam mais ser devolvidos automaticamente ao país de origem. Cada caso deveria ser analisado individualmente, respeitando os procedimentos legais. Nas redes sociais, porém, a decisão foi apresentada de forma enganosa. Milhares de publicações passaram a afirmar que a Espanha não poderia mais deportar qualquer pessoa que chegasse a Ceuta por via marítima. O governo espanhol desmentiu essa interpretação e esclareceu que o julgamento apenas alterava o procedimento administrativo. A repatriação continuava sendo possível, desde que respeitados os trâmites legais. Quando o esclarecimento foi divulgado, entretanto, milhares de migrantes já haviam iniciado a viagem. À medida que os rumores se espalhavam, multidões se deslocaram para Fnideq, cidade marroquina localizada junto à fronteira. Centenas de pessoas entraram no mar praticamente ao mesmo tempo, tentando alcançar Ceuta a nado ou contornando as barreiras marítimas. As fortes correntes, o frio e o desgaste físico transformaram a travessia em uma operação de alto risco. A crise deixou dezenas de mortos e mobilizou equipes de resgate em ambos os lados da fronteira. Entre os migrantes havia homens, mulheres e menores de idade, enquanto famílias buscavam informações sobre parentes desaparecidos.
Entenda como fake news nas redes sociais impulsionaram travessia de milhares de migrantes para Ceuta
Vídeos no TikTok, Instagram e WhatsApp distorceram decisão da Justiça espanhola e convenceram cerca de 60 mil pessoas de que a fronteira estava 'aberta'













