Apontada como a política mais bem avaliada da Argentina, Myriam Bregman lança livro no Brasil; ao GLOBO, advogada defende alternativa da esquerda na América Latina 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Myriam Bregman, advogada, deputada nacional e uma das principais líderes da Frente de Esquerda da Argentina, durante evento em Buenos Aires — Foto: Esquerda Diário Deputada federal e uma das principais lideranças da esquerda argentina, Myriam Bregman é hoje a política mais bem avaliada do país. Advogada de direitos humanos e linha de frente do movimento feminista na Argentina, a dirigente do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) foi candidata à Presidência em 2023 e volta a aparecer entre os nomes mais fortes para a disputa de 2027 contra Javier Milei. Em meio ao avanço da ultradireita na América Latina, ela surge como uma voz destoante, defendendo constantemente o caminho oposto: entre suas bandeiras, o fim do capitalismo, a igualdade de classes e a união idealizada por Simón Bolívar. Bregman desembarca em São Paulo esta semana para o lançamento do livro “Moderada Nunca: apontamentos contra a resignação, a submissão e o conformismo” (Editora Iskra). Em entrevista exclusiva ao GLOBO, a deputada diz que Milei atua como porta-voz da Casa Branca na região, defende uma política externa latino-americana mais ofensiva em relação aos Estados Unidos e afirma que a extrema direita, apesar de avançar, segue mais frágil do que aparenta. A visita da senhora ao Brasil ocorre em um momento de tensão nas relações entre Brasil e Argentina. A senhora chegou a dizer que o caso mostrava Milei como “mensageiro gratuito” das políticas do secretário de Estado Marco Rubio. Há risco de consequências de médio e longo prazo na relação bilateral com essa tentativa de interferência eleitoral? Milei atua claramente como um porta-voz da Casa Branca, sobretudo de Donald Trump, embora, nos últimos tempos, mais governos de direita tenham disputado esse espaço. Isso nos alerta para um problema muito grave: a nova ofensiva de Trump e dos EUA na América Latina. Ela se manifesta por diferentes mecanismos, mas uma forma de intervenção que precisamos levar cada vez mais em consideração é a que ocorre nos processos políticos. É isso que estamos vendo, e é esse o alerta que devemos ter em relação às próximas eleições no Brasil. Somos oposição de esquerda ao governo Lula, mas denunciamos o perigo representado por aquilo que hoje pode parecer apenas uma investida política. Desde a Copa do Mundo, Milei buscou enquadrar as críticas à Argentina como consequências da esquerda “woke”, citando países como Brasil e México e também o Partido Democrata, nos EUA. A senhora criticou essa postura, mas disse que “tentaram transformar a seleção argentina na vilã”. Na quinta, o governo Milei emitiu um decreto para proibir a entrada e expulsar estrangeiros que “expressem mensagens de ódio” contra a Argentina. Como avalia os acontecimentos? Fui uma das primeiras a condenar os ataques racistas contra [o jogador francês Kylian] Mbappé, não se pode justificar isso. O que o governo tentou apresentar como uma unidade nacional acabou pesando muito contra ele, além de alguns setores do peronismo, que chegaram a afirmar que preferiam um argentino a um progressista. Eu rejeito essa posição. Não prefiro nenhum fascista, direitista, ninguém que defenda o Estado genocida de Israel. Mas acho que isso [a polêmica sobre a faixa com a inscrição “As Malvinas são argentinas” após um jogo] abriu uma discussão interessante na Argentina sobre quem são e serão nossos aliados no mundo para recuperar as Ilhas Malvinas dessa ocupação colonial. Também desmontou a narrativa de alguns intelectuais ao redor do mundo que pretendiam equiparar o governo de Milei à totalidade da população argentina. Se hoje nós, da esquerda — e, no meu caso, tendo uma imagem positiva junto a quase 50% da população — conseguimos esse apoio, isso deve significar que nem todos compartilham posições racistas. Levantamentos recentes mostram que, embora o apoio a Milei tenha caído, ele ainda tem bastante engajamento quando o assunto é sua posição internacional, em especial na relação com EUA e Israel. Na visão que a senhora propõe, como deveria ser a condução da política externa da Argentina? Entre todas as coisas desastrosas do governo de Milei, a política externa é uma das piores. Trata-se de um governo que abriu mão da soberania política e econômica, e entregou o nosso país, nossos bens naturais comuns, as decisões econômicas e as decisões de política externa aos Estados Unidos e a Israel. É perverso, e é um dos eixos da denúncia que fazemos. Acreditamos que é necessário adotar uma política ofensiva em relação aos EUA e à intervenção que exercem. Temos críticas fortes ao papel de Claudia Sheinbaum e do governo Lula, por exemplo, no caso de Cuba. Cuba sofre um bloqueio há muitos anos e, acredito que nos últimos tempos, esse bloqueio tenha se tornado completamente criminoso. E nós entendemos que, sendo México e Brasil grandes potências da região, deveriam adotar uma posição diferente. Não é aceitável que o povo cubano continue pagando as consequências. Em discurso, afirmei que, se a esquerda governasse a Argentina, a primeira medida seria enviar a Cuba o petróleo de que o país necessita, porque, para nós, o sofrimento dos povos irmãos é tão importante quanto o nosso. A direita me ataca todos os dias por causa dessa declaração, mas isso demonstra a nossa posição. Embora sejamos críticos ao regime cubano, temos convicção, como esquerda, de que a saída para a situação de submissão vivida na América Latina só virá da nossa união. No livro, a senhora escreve que não subestima a ultradireita, mas que ela parece mais frágil e precária. Ainda assim, temos visto o avanço de lideranças desse campo em vários países da América Latina. O que explica essa tendência? Os acontecimentos no mundo avançaram depois que comecei a divulgar o livro. A direita venceu na Bolívia e no Chile, mas não conseguiu se consolidar. São governos que não conseguem se estabilizar, são contestados pelas massas. [José Antonio] Kast tem níveis muito baixos de aprovação, assim como acontece com Milei depois de alguns anos de governo. Na Bolívia, mal o governo tomou posse e já enfrentou um importante levante camponês e popular. Como fenômeno regional, o que observamos é que esses governos que se apresentam como reformistas, de centro-esquerda ou progressistas administram o capitalismo tal como ele existe. Eles não alteram as bases estruturais que permitiram o avanço da direita. Acabam gerando frustração, desencanto e um nível de insatisfação que a direita aproveita para retornar de maneira mais agressiva e radical. [Por anos,] parecia que as mulheres eram mais responsáveis pela crise do que o Fundo Monetário Internacional (FMI). Parece absurdo, mas foi assim que a narrativa foi apresentada em nosso país, e nós tivemos a coragem de denunciar, em manifestações, que não aceitaríamos esse discurso. Isso fez com que, por incrível que pareça, Milei tivesse de parar de atacar as mulheres, hoje suas principais opositoras. Ao contrário da imagem de força que tenta transmitir, os índices de rejeição de Milei são hoje muito elevados, algo entre 60% e 70% da população. Agora, o ajuste fiscal não afeta apenas essa área. Há cortes na saúde, educação e em todas as áreas que o FMI considera secundárias. Porque quem elabora o orçamento argentino é [a diretora-geral do FMI] Kristalina Georgieva; são os Estados Unidos, e não o Congresso argentino. E isso precisa ser dito. É algo que o restante da oposição tem muita dificuldade em reconhecer, porque todos os últimos governos acabaram se alinhando ao Fundo Monetário Internacional. Manifestante participa de ato pelo Dia Internacional da Mulher em Buenos Aires, após aliados de Javier Milei apresentarem projeto para revogar a legalização do aborto — Foto: Patricia Monteiro/Bloomberg A senhora diz que foi estudar Direito porque queria fazer justiça em um mundo que lhe parecia injusto. A que atribui a construção da visão de mundo que tem hoje? Como construiu sua posição política até chegar na convicção de que será “Moderada Nunca”? Quando comecei a estudar Direito, fiz isso com a ideia de que poderia mudar o mundo por meio das minhas ações. Mas, com os anos, conheci a esquerda e o que hoje é o meu partido, e foi aí que tomei consciência de que a atuação na área dos direitos humanos tinha um limite: atuar sempre dentro da democracia capitalista. Percebi que poderíamos realizar um grande trabalho, mas que havia um problema estrutural neste sistema, que era justamente o responsável por violar os direitos. Assim, quando comecei minha militância de esquerda com meu atual partido, compreendi que era muito importante travar essa luta dentro deste sistema, mas também era necessário lutar por um sistema em que essas injustiças fossem erradicadas. Quando decidi escrever este livro, o contexto era o de um sistema político muito mutável, no qual as direitas se radicalizaram. Surge, então, uma nova distinção política, e isso também abre um debate dentro da esquerda: que tipo de militância é necessária ou precisa ser atualizada para enfrentar esses fenômenos? Daí surgiu essa frase presente em um discurso na Patagônia argentina: “Moderada nunca”, porque o que vemos é que a moderação não serviu para enfrentar a extrema direita. Myriam Bregman, advogada, deputada nacional e uma das principais líderes da Frente de Esquerda da Argentina, durante evento em Buenos Aires — Foto: Esquerda Diário A senhora é frequentemente apontada como a política mais bem avaliada da Argentina. Quais seriam as ideias e propostas da senhora que vê como tendo mais apelo entre os argentinos? Como elas te diferenciam do resto da oposição do país? Acredito que a principal diferença é que nós somos deputados que doamos nossos salários. Recebemos o equivalente ao salário de um professor e doamos o restante. Vivemos como qualquer outra pessoa. E o que as pessoas mais nos agradecem é termos estado presentes em todas as lutas, enfrentando Milei desde o primeiro momento. Metade da sociedade não votou em Milei. Ou seja, desde cedo havia motivos sólidos para sair às ruas e enfrentá-lo. Estivemos presentes o tempo todo, tanto na Câmara dos Deputados quanto nas ruas. Isso nos diferencia, e é isso que a sociedade reconhece. Estamos posicionados na defesa dos trabalhadores, dos direitos das mulheres e das minorias, e somos independentes dos partidos tradicionais. A senhora também disse que sempre busca “ir além” das conquistas imediatas. Esse “ir além” pode se traduzir em uma nova candidatura à Presidência em 2027? Existe algum plano nesse sentido? Quando chegar o momento, discutiremos as candidaturas. E, naturalmente, participaremos também da disputa eleitoral, porque acreditamos que deve haver candidaturas comprometidas com uma perspectiva de independência de classe. Não temos por que apoiar projetos que conciliem interesses com os capitalistas. Mas acredito que essa frase vai além da questão eleitoral. Ela fala da nossa perspectiva de transformar esta sociedade desde a raiz; de lutar por uma sociedade em que não prevaleçam os interesses de pequenos grupos. Trata-se da convicção de que devem governar os que nunca governaram: os trabalhadores, na perspectiva de um governo de ruptura com o capitalismo. Em última instância, é por isso que lutamos. Serviço dos eventos Myriam Bregman e o fenômeno da esquerda revolucionária e militante argentina Sábado, 08 de agosto, das 15h às 20hSindicato dos Metroviários e Metroviárias de São Paulo (R. Padre Adelino, no 700 - Quarta Parada, São Paulo - SP, 03303-000)Realização: Editora IskraApoio: Fundação Rosa Luxemburgo e Instituto Casa Marx Legalização do aborto: o que o Brasil pode aprender com a Argentina? Segunda-feira, 10 de agosto, das 19h às 21hLivraria da Vila - Fradique (R. Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena, São Paulo - SP, 05416-011)Realização: Editora Iskra e Livraria da VilaApoio: Fundação Rosa Luxemburgo
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