Consultoria americana mostra que Brasil está na lanterna de países com rede preparada para suportar demandas de IA 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Chatbot do Google, o Gemini, em celular da Samsung — Foto: Bloomberg A inteligência artificial (IA) não está redesenhando apenas a geopolítica global, mas a própria arquitetura da internet. Até pouco tempo, o principal fluxo das redes de telecomunicações vinha da demanda gerada por streamings e downloads, com os dados saindo do data center para a tela do usuário. Agora, esse fluxo se inverteu, devido à popularização de ferramentas de IA como ChatGPT e Gemini. Para gerar imagens, vídeos e textos em tempo real, a informação sai do celular e de computadores rumo à nuvem. A expectativa é que já no início da próxima década esse novo caminho ganhe tração e aumente cinco vezes, com um detalhe: 25% desse novo tráfego será feito integralmente por agentes de IA. Para se adequar a essa nova rota tecnológica, as empresas de telecomunicações, sobretudo no Brasil, precisarão direcionar e ampliar seus investimentos para redesenhar essa infraestrutura. Segundo estudo da consultoria Ookla, apenas 5,74% da capacidade das redes móveis no país está destinada ao chamado uplink, nome técnico dado ao tráfego de dados enviado pelo usuário para a internet. O percentual coloca o Brasil entre os países menos preparados para essa nova realidade e bem distante dos líderes globais, como Indonésia, Alemanha, Tailândia, Suécia e Noruega, onde a fatia da rede dedicada ao envio de dados chega a quase 24%. Especialistas consideram o cenário desafiador, pois a expectativa é que os investimentos no Brasil permaneçam estáveis nos próximos anos. A Conexis, que reúne as empresas do setor, estima aportes na ordem de R$ 36 bilhões neste ano. Além disso, a rede 5G pura (stand alone), necessária para rodar as aplicações de IA em alta velocidade, está em construção, respondendo por apenas cerca de 10% de toda a infraestrutura de quinta geração no país. O caminho da IA pelas redes — Foto: Criação / O Globo Rodrigo Dienstmann, presidente da Ericsson para o Cone Sul da América Latina, lembra que a demanda vai crescer com a chamada “IA física”, quando vestíveis, drones e carros ganharem mais espaço no dia a dia. — Isso tudo vai gerar mais tráfego, pois serão produtos com IA usando agentes para enviar comandos para a rede. Depois, veremos os robôs agênticos entrando nessa equação, sendo que 25% deles serão para uso doméstico. E com os agentes de IA não há mais essa leitura de que a rede fica livre na madrugada. Há uso 24 horas por dia, e as redes não estão projetadas para isso. É necessário um reposicionamento das frequências, com a realocação do 3G e 4G para o 5G, além de ampliar a quantidade de sites para adensar a rede — afirma Dienstmann. Andre Gildin, sócio da RKKG Consultoria, lembra que os países que lideram o ranking já apostam nessa estratégia, com melhor uso da arquitetura de rede combinada com a implantação do 5G voltada para as aplicações de IA, além de sistemas mais eficazes de conexão entre as fibras ópticas das teles e os provedores de nuvem. Hoje, aponta o estudo da Ookla, um dos gargalos no Brasil é a concentração de data centers em São Paulo. — Há no Brasil o desafio de latência entre a rede móvel e os grandes provedores de nuvem, o que significa que, mesmo com uma boa cobertura, as respostas de aplicações de IA podem demorar mais porque o caminho até a nuvem é longo ou pouco otimizado. Com a IA aumentando, será necessário ampliar o espectro até uma aceleração da adoção do 5G stand alone, além de expandir a infraestrutura de edge computing para processamento de dados na borda, com parte desse processamento acontecendo em servidores menores instalados na rede da operadora e em antenas 5G — explica Gildin. Para Mike Dano, analista-chefe do setor de telecomunicações da Ookla, os maiores desafios para as teles serão econômicos. A questão central, diz, será definir o custo dos serviços: — As operadoras precisarão gerenciar suas redes para inverter décadas de priorização do download. Além de acompanhar o crescimento da demanda por dados dos usuários, elas precisarão fazer isso de forma financeiramente sustentável. Esses investimentos precisam gerar retorno financeiro. Ao mesmo tempo, os consumidores podem não adotar os serviços mais avançados de inteligência artificial se o custo for elevado. Esse equilíbrio entre investir em novas tecnologias e garantir que elas sejam acessíveis talvez seja o maior desafio. Esse debate ocorre no momento em que o Brasil ainda tenta avançar com a conexão 5G. O país tem hoje 276,4 milhões de assinaturas de telefonia móvel. Desse total, a quinta geração responde por 23,9% — abaixo dos 64,3% do 4G, mas bem à frente dos 5,1% do 3G. Em termos de cobertura, o 5G está presente em 3.040 dos 5.570 municípios brasileiros, enquanto o 4G já alcança todos eles, segundo dados da consultoria Teleco. Para Marcos Ferrari, presidente executivo da Conexis, as empresas estão atentas a esse movimento. Segundo ele, é uma tendência irreversível: — A inteligência artificial é um fenômeno recente, e a adaptação das redes das empresas de telecomunicações ocorrerá de forma gradual, conforme o aumento da demanda. Segundo a Ookla, com o aumento do uso da IA, o brasileiro passa a sentir uma rede mais lenta em horários de pico de consumo. O estudo diz que a latência (tempo de resposta) chega a ser até sete vezes maior. “Em termos práticos, isso significa que aplicações sensíveis ao tempo de resposta — como IA por voz, realidade aumentada, jogos em nuvem, robótica remota e veículos conectados — podem sofrer mais atrasos durante períodos de maior utilização da rede”, afirmou a Ookla. — O desafio para as operadoras não é apenas oferecer baixa latência em condições ideais, mas manter esse desempenho mesmo quando a infraestrutura está sob forte carga, o que exige investimentos em capacidade de rede, fibra óptica, data centers e computação de borda (edge computing). Nem tudo é velocidade de download. A IA inverte a lógica de que as pessoas consomem muito mais do que produzem — afirma Dano. André Sarcinelli, CTO da Claro, lembra que a fluidez e o desempenho das aplicações de IA dependem da integração sem atritos entre a infraestrutura de telecomunicações e o ecossistema de nuvem. Por isso, diz, a empresa já se posiciona como uma “neocloud”. O grupo está investindo R$ 1 bilhão para ampliar a plataforma de nuvem. — Nossa estratégia prioriza aproximar o processamento computacional da borda da rede para encurtar a distância física até o usuário final. Na rede móvel, evoluímos a infraestrutura do 5G com alocação otimizada de frequências, assegurando maior eficiência no envio intensivo de dados exigido por aplicações de áudio, vídeo e IA em tempo real. Segundo Guilherme Silveira, diretor de Transformação de Redes da Vivo, assim como ocorreu em outros ciclos tecnológicos, o avanço da IA exige investimentos contínuos em capacidade, cobertura, transporte de dados, processamento e inteligência de rede. A empresa investe por ano R$ 9 bilhões na expansão do 5G e da fibra, e na modernização da infraestrutura, diz: — A conectividade necessária para aplicações de IA é resultado de um ecossistema amplo que envolve redes móveis e fixas, infraestrutura de transporte, pontos de interconexão, data centers e ambientes de nuvem. Por isso, um dos focos estratégicos da Vivo é fortalecer a conectividade para ambientes multicloud e data centers. Marco Di Costanzo, vice-presidente de Tecnologia da TIM Brasil, observa que as redes de telecomunicações precisam se adaptar ao cenário da IA, oferecendo tempos de resposta mais rápidos e, principalmente, estáveis. Para isso, a operadora vem acelerando a modernização de sua infraestrutura. Desde o ano passado, a TIM está substituindo equipamentos e atualizando sua rede, incluindo a adoção de antenas controladas por IA, capazes de se adaptar automaticamente ao fluxo de dados. A empresa já concluiu a modernização de sua rede na cidade de São Paulo e, neste ano, pretende expandir o projeto para mais oito capitais e suas respectivas regiões metropolitanas. — O objetivo é atender a toda essa demanda de IA, que interage cada vez mais com diversos aparelhos, sensores e sistemas de controle — afirma Di Costanzo. — A IA trouxe um novo eixo de deslocamento de dados. Há muitos desafios no Brasil, pois é preciso que os data centers fiquem mais perto dos consumidores. Por isso, estamos distribuindo essa capacidade de conexão. Investimento de todo o ecossistema Sarcinelli, CTO da Claro, defende um modelo colaborativo de todo o ecossistema de tecnologia na construção de infraestrutura: — A capilaridade da nossa rede precisa caminhar integrada à capacidade de processamento dos grandes players globais. Silveira, da Vivo, concorda: — As operadoras desempenham papel fundamental na conectividade, mas também são essenciais os investimentos realizados por provedores de nuvem, data centers, hyperscalers (como as big techs), empresas de software e desenvolvedores de aplicações. O desenvolvimento desse ecossistema é necessariamente colaborativo.
Com inteligência artificial, teles brasileiras terão de investir para se adaptar à nova lógica da internet
Consultoria americana mostra que Brasil está na lanterna de países com rede preparada para suportar demandas de IA
Brasil tem só 5,74% de uplink (vs 24% em líderes); tráfego IA crescerá 5x, com 25% por agentes autônomos. Telcos devem ampliar 5G stand-alone e edge computing, mas orçamento fixo (R$ 36 bi/ano) não acompanha, criando latência 7x e inviabilidade de serviços IA.







