Gerando resumoFoto: Google/Divulgação James ManyikaVice-presidente de tecnologias de IA e sociedade no GooglePara James Manyika, vice-presidente sênior de tecnologias de inteligência artificial (IA) e sociedade do Google, países como o Brasil devem focar nas aplicações da IA para manterem suas soberanias, ao menos enquanto o custo de criar uma própria estiver na casa dos bilhões de dólares.“No que tange à transformação concreta de economias, países e sociedades no mundo real, é possível que a corrida mais vantajosa a se disputar seja a da aplicação e do uso da IA em vez da sua criação, especialmente enquanto o desenvolvimento dessa tecnologia permanecer tão oneroso”, diz Manyika.Ele afirma que a maioria das IAs hoje usa a arquitetura transformer (que aparece na letra “T” do ChatGPT, por exemplo), criada pelo Google, que demanda muito processamento, resultando em altos custos de operação e treinamento. Mas acredita que isso pode mudar com o avanço da tecnologia.O executivo também falou sobre o problema das fake news, potencializado agora pelas plataformas de IA, capazes de gerar vídeos, fotos e áudios com conteúdos falsos.PublicidadePara solucionar isso, a empresa tenta popularizar a sua marca d’água invisível criada junto com a Nvidia, o SynthID, para facilitar a identificação de conteúdos falsos. No evento anual para desenvolvedores, o Google I/O, a big tech anunciou que o SynthID será adotado não só pela dona do ChatGPT, mas também pela EvelenLabs, focada em áudios, e pela Kakao, gigante sul-coreana conhecida por seu aplicativo de mensagens. Essa marca d’água pode ser identificada por aplicativos como o Gemini, a IA do Google, e apontar que determinado conteúdo foi feito com IA. “Afinal, o objetivo é garantir que todos tenham a capacidade de fazer isso”, afirma.James Manyika rejeita a ideia de que a IA irá acabar com diversos empregos da noite para o dia Foto: Divulgação/GoogleNo seu dia a dia, Manyika supervisiona projetos ligados ao Gemini e à computação quântica em áreas como Google Research e Google Labs, que desenvolvem novas tecnologias. Natural do Zimbábue, Manyika se formou em Engenharia Elétrica pela Universidade do Zimbábue e seguiu para a Universidade de Oxford como bolsista Rhodes Scholar, onde fez mestrado e doutorado em áreas como IA, robótica, matemática e ciência da computação.Antes de chegar ao Google, atuou como professor e pesquisador em Oxford e passou por instituições como o Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e o MIT. Manyika também teve atuação em políticas públicas e governança global de IA. No governo de Barack Obama, foi vice-presidente do Conselho de Desenvolvimento Global da Casa Branca. Depois, integrou o Comitê Consultivo Nacional de IA dos Estados Unidos e foi escolhido pela ONU para copresidir o órgão que cuida da governança internacional da inteligência artificial.PublicidadeEle rejeita a ideia de que a IA irá acabar com diversos empregos da noite para o dia. Em vez disso, argumenta que o impacto da IA no mercado de trabalho ocorrerá em três frentes: haverá redução de alguns empregos, novos empregos serão criados e, sobretudo, a grande maioria dos empregos será transformada. “Por exemplo, compare o que os caixas de banco faziam na década de 1970 com o que fazem hoje. Antes dos caixas eletrônicos, eles passavam 80% do tempo contando dinheiro. Hoje, o que eles fazem? Ainda contam dinheiro, talvez 20% do tempo, mas estão ocupados com outras tarefas, como ajudar os clientes no planejamento financeiro”, diz.Manyika também afirma que a criação de uma IA geral, com inteligência e capacidade de trabalho semelhantes às de um humano, está a 5 ou 10 anos de se tornar realidade. Isso se deve à necessidade de mais alguns avanços para torná-la mais consistente e capaz de funcionar bem em todos os aspectos.Leia os principais trechos da entrevista a seguir.PublicidadeO problema das fake news se tornou uma questão maior com a inteligência artificial. Há uma solução para isso? Como o Google combate esse problema?CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEÉ algo a ser levado muito a sério. As fake news já representavam um desafio antes da IA. Elas são geradas por humanos e por meio de humanos, apesar da etapa da disseminação dessas informações falsas. No entanto, quando se trata de IA, temos investido em ferramentas como o SynthID. É dessa forma que inserimos marcas d’água em todo o conteúdo gerado pelos nossos sistemas. Assim, se você utiliza o Gemini ou qualquer uma das nossas ferramentas generativas, como o Nano Banana (gerador de imagens), nós sempre incluímos uma marca d’água indelével em todo conteúdo que geramos. Já oferecemos esse recurso há alguns anos, mas o que nos deixa entusiasmados é a novidade anunciada no Google I/O: passamos a contar com a adesão de muitos outros parceiros do setor. Agora, até mesmo empresas como a OpenAI estão adotando o uso do SynthID. Afinal, o objetivo é garantir que todos tenham a capacidade de fazer isso. Portanto, se você inserir uma imagem no Gemini e perguntar se ela foi gerada sinteticamente, a ferramenta confirmará que sim, pois a imagem contém o SynthID. Agora, a nossa expectativa é que todos comecem a adotar esse padrão e a tecnologia que desenvolvemos. Essa é uma das iniciativas que estamos realizando. Além disso, tomando o YouTube como exemplo, também estamos implementando medidas relacionadas ao conteúdo para garantir que, especialmente no caso de figuras públicas, respeitemos a identidade e a individualidade dessas pessoas. Estamos constantemente atualizando a lista de personalidades reconhecidas, incluindo políticos, celebridades e atores, para assegurar que essas identidades sejam devidamente identificadas e protegidas. Trata-se de uma área na qual estamos investindo intensamente e que levamos muito a sério.Com os grandes investimentos e constantes avanços da IA, estamos perto da criação de uma inteligência artificial geral (AGI) que seja confiável e segura?Existem muitas definições de AGI e os cronogramas são diferentes. Da forma como o Google encara o assunto, ela está a pelo menos 5 ou 10 anos de ser criada, pois ainda precisamos de mais avanços decisivos. Se você pensar no que essa tecnologia é, ela ainda é espetacularmente boa em algumas coisas, mas surpreendentemente ruim em outras. Ainda precisamos de mais alguns avanços para torná-la mais consistente e capaz de funcionar plenamente em todos os aspectos. Agora, existem algumas pessoas que adotam uma definição mais branda de AGI, o que acho menos interessante. Refiro-me ao caso em que a sua definição seja algo como um sistema capaz de realizar muitas das coisas que um ser humano típico faz. De certa forma, isso estabelece um padrão muito mais baixo por se referir a ‘muitas’ das coisas e a um ‘ser humano típico’, o que torna a proposta menos interessante. Por isso, nós preferimos a definição mais rigorosa, aquela que busca uma abordagem mais científica. Sob essa perspectiva, acreditamos estar entre 5 e 10 anos da AGI.PublicidadeUm problema global no desenvolvimento da IA é a escassez de chips de memória. Existe alguma maneira de superar esse problema?Eu espero que sim. Espero que a indústria de memórias tome alguma providência a respeito. Um dos aspectos que foi subestimado, e não tão bem antecipado, é que o foco de todos esteve nos chips em si. Sejam GPUs ou, como é o nosso caso, as TPUs que fabricamos. Porém, um dos elementos fundamentais e de grande importância é a memória. Muitas vezes, ao se construir esses sistemas, assim como a comunicação de alta largura de banda, a memória se mostra igualmente crucial. A indústria de memórias não antecipou plenamente a enorme demanda gerada pela expansão da infraestrutura de IA. Com isso, sim, estamos enfrentando escassez de memórias, além da lentidão na produção. Ainda persistimos com a falta dos chips, afinal, não creio que o mundo disponha de tantas GPUs (unidade de processamento gráfico) e TPUs (unidade de processamento de tensor) quanto gostaria. A memória está se revelando, agora, o outro grande ponto de escassez. Portanto, sim, esperamos que a indústria de memórias responda a esse cenário e amplie a oferta de produtos.Criar uma IA é algo muito custoso. Poucos países dispõem desse tipo de verba para investir na criação de suas próprias IAs. Como podem os países do Sul Global — como o Brasil, o Zimbábue e outros — preservar sua soberania na era da IA?Não creio que sempre será caro. É assim hoje em dia. O alto custo atual se deve ao fato de estarmos desenvolvendo sistemas baseados em arquiteturas transformer — cuja base foi inventada no Google e serve de alicerce para os LLMs (grandes modelos de linguagem). As arquiteturas transformer exigem uma intensidade computacional elevada. Elas escalam de forma quadrática (toda vez que o texto dobra de tamanho, o processamento necessário é elevado ao quadrado, como 2²). No entanto, essa não é a única arquitetura existente. Há muitas pesquisas em andamento visando criar outros tipos de arquiteturas, nas quais a intensidade computacional não seja tão alta. O progresso nessa área ainda é lento. Portanto, é bem possível que, no futuro, nem todos os sistemas de IA sejam baseados em arquiteturas transformer. Haverá outros tipos de sistemas. Sendo assim, eu não presumiria que esse problema será uma constante eterna. Enquanto essa situação persistir, o que ela significa para os países do Sul Global na América Latina, na África ou na Ásia? Acredito que signifique algumas coisas. A primeira delas diz respeito a como esses países podem obter acesso aos modelos de IA. Nós sempre oferecemos, além dos nossos modelos Gemini, modelos de ‘pesos abertos’ (open weights), como o Gemma, por exemplo. Esses modelos apresentam diferentes portes e variados níveis de intensidade de custos. Assim sendo, uma das soluções é garantir o acesso a uma gama mais ampla e diversificada de modelos. PublicidadeO outro aspecto, e fazemos isso colaborando com terceiros, é construir infraestrutura em diferentes locais, de modo que o treinamento de modelos de IA ocorra em muitos lugares distintos. A outra vertente dessa questão, que vejo com frequência em países de menor porte, é a seguinte: enquanto muitos se concentram na criação de modelos de ponta, veremos países que optarão por focar no uso e na adoção dessa tecnologia, incorporando-a de forma acelerada. Nesse sentido, aprecio o exemplo de Singapura (país que regulou a IA com barreiras de segurança a fim de evitar sufocar a inovação). Embora não estejam desenvolvendo modelos de ponta, se tivéssemos de classificar os países com base em quem melhor aproveita a IA para transformar sua nação e sua economia, eles estariam entre os primeiros colocados. Sendo assim, no que tange à transformação concreta de economias, países e sociedades no mundo real, é possível que a corrida mais vantajosa a se disputar seja a da aplicação e do uso da IA em vez da sua criação, especialmente enquanto o desenvolvimento dessa tecnologia permanecer tão oneroso.Portanto, países como o Brasil deveriam utilizar a IA nas áreas em que já são fortes, como fintechs e agronegócio? É na aplicação prática dessa tecnologia que ela realmente faz a diferença para economias e sociedades. Assim, quando penso na IA em nível global — e faço isso porque passei dois anos copresidindo o órgão de alto nível da ONU sobre IA —, costumo classificar os países em duas categorias. Certamente, há aqueles que estão desenvolvendo a tecnologia, um grupo que pode ser pequeno por enquanto. Mas também penso nos países que estão aplicando a IA para aprimorar suas próprias nações e sociedades, em benefício de seus cidadãos, estudantes, empreendedores e startups. A lista de países é bem diferente quando analisamos a aplicação da IA como ferramenta de transformação nacional.Quanto ao uso da IA, muitos governos estão enfrentando dificuldades para regulamentá-la de forma eficiente. Existe uma bala de prata?Sempre dissemos que a IA é importante demais para não ser regulamentada. Mas é também importante demais para não ser bem regulamentada. A regulamentação da IA deve sempre buscar não apenas uma, mas duas coisas. Por um lado, deve-se prestar atenção aos riscos e às complexidades inerentes à IA. Além disso, deve-se também focar em viabilizar todos os benefícios que se espera obter dessa tecnologia. Esses benefícios não surgirão por conta própria. Transformar um sistema de saúde, aprimorar o aprendizado ou criar oportunidades para o uso da IA em prol do interesse público. Existem muitas aplicações de IA voltadas para o interesse público. Uma das coisas de que me recordo no Brasil, por exemplo, é que temos ajudado muito o País na previsão de inundações. Passamos de uma cobertura de 300 localidades no Brasil para 800 atualmente. Para mim, esse é um exemplo de IA a serviço do interesse público. Portanto, como regulamentar de modo a incentivar iniciativas que sejam úteis para a sociedade? Então, a regulamentação deve sempre ter esses dois aspectos em mente. Alguns países e regiões não conseguem encontrar o equilíbrio certo. Retomo o exemplo de Singapura. Eles levam a sério tanto os riscos e as complexidades quanto o potencial e as possibilidades empolgantes da IA, garantindo que a regulamentação estimule esse desenvolvimento. Portanto, não creio que se trate de uma escolha excludente, regulamentar ou não. Mesmo para nós, como empresa, a abordagem em relação à IA deve ser, simultaneamente, ousada e responsável. A ousadia reside na busca por realizar as iniciativas mais ambiciosas em benefício da sociedade. A responsabilidade, por sua vez, reside na identificação e execução das medidas de segurança e ética que se fazem necessárias. Essa ideia de conciliar ambas as coisas, seja numa empresa ou num órgão regulador, é o caminho a ser seguido. PublicidadeLeia tambémO que o CEO do Google diz sobre o futuro da IA? Veja vídeoGoogle faz maior mudança nas buscas em 25 anos e desafia o mercado editorialComo a IA está forçando o Google a reinventar seu império de anúnciosEstamos vendo a IA presente em muitos empregos e executando diversas funções que antes eram desempenhadas por seres humanos. Qual o sr. acredita ser o futuro do trabalho na era da IA?Precisamos ter uma abordagem matizada em relação a isso. Sim, é possível que vejamos algumas ocupações que entrarão em declínio com o passar do tempo. Mas também veremos muitos empregos que crescerão. O que me chama a atenção é o fato de que, nos EUA, 68% dos empregos que existem simplesmente não existiam antes de 1945. São empregos que não existiam. Portanto, haverá um crescimento do emprego impulsionado pela IA, tanto pelo aumento da demanda em certas funções já existentes quanto pela criação de novos postos de trabalho. Prever quais empregos serão criados é sempre difícil, mas esse tem sido o histórico da tecnologia. Assim, sim: algumas ocupações podem declinar, e alguns empregos podem crescer, mas o efeito dominante será que muitos empregos sofrerão transformações, à medida que as pessoas passarem a utilizar a IA como ferramenta complementar às atividades que já realizam. Por exemplo, compare o que os caixas de banco faziam na década de 1970 com o que fazem hoje. Antes dos caixas eletrônicos, eles passavam 80% do tempo contando dinheiro. Hoje, o que eles fazem? Ainda contam dinheiro, talvez 20% do tempo, mas estão ocupados com outras tarefas, como ajudar os clientes no planejamento financeiro. Portanto, a transformação dos empregos terá maior magnitude. Não me preocupa a possibilidade de os empregos desaparecerem num futuro próximo. O que me preocupa, sim, é saber se as pessoas terão as competências e a capacidade de adaptação e mudança necessárias, e como viabilizar isso. Essa é uma tarefa para todos, incluindo formuladores de políticas públicas, empregadores, empresas e a sociedade. No Google I/O, você falou bastante sobre agentes de IA em diversas áreas diferentes. Qual é a sua visão para o futuro? Será algo tão essencial quanto o telefone é hoje?A mudança de paradigma se baseia no seguinte: por tempo demais, as pessoas encararam a IA como sistemas de conteúdo. Ou seja, você insere algo, obtém um resultado, vê se gosta e, se gostar, utiliza. Agora, há o reconhecimento de que eles também podem ser sistemas capazes de realizar ações. Esse sempre foi o objetivo da IA. Quando fiz meu doutorado em IA e robótica, há 30 anos, sempre falávamos da IA sob a perspectiva de ‘como construir agentes?’. Se você consultar grande parte da literatura da época, verá que ela fala como construir agentes capazes de compreender o ambiente em que estão inseridos e realizar tarefas úteis. Essa sempre foi uma parte fundamental da visão de longo prazo para a criação de sistemas de IA realmente úteis. Só agora passamos a ter a capacidade real de construir sistemas de agentes úteis. É por isso que você começa a ver essa tecnologia despontar em todo tipo de aplicação e uso prático.Então, grande parte do que falamos no I/O diz respeito à maneira como estamos incorporando essas capacidades de agência a todas as tecnologias com as quais as pessoas interagem, seja na busca, no próprio aplicativo do Gemini, no navegador ou em qualquer um desses sistemas. Sendo assim, vocês começarão a ver mais capacidades de ação da IA. Se vocês encontrarem um livro acadêmico com mais de 30 anos de autores como Peter Norvig e Stuart Russell, e buscarem a definição de IA, é muito provável que a palavra ‘agente’ já esteja presente nela.Publicidade
Entrevista | Corrida para usar IA é mais vantajosa para o Brasil do que criar uma própria, diz VP do Google
Em entrevista ao ‘Estadão’, James Manyika afirma que o custo associado ao desenvolvimento de uma plataforma de inteligência artificial é muito oneroso e que a liderança em aplicações ajuda a manter a soberania dos países do Sul Global na nova era tecnológica















