O Brasil precisa ir além da discussão regulatória sobre inteligência artificial e adotar uma estratégia para desenvolver capacidades próprias na área, sob risco de ampliar sua dependência de tecnologias estrangeiras. A avaliação foi compartilhada por Bruno Lewicki, chefe de políticas públicas da OpenAI para a América Latina, e por Ronaldo Lemos, membro do Oversight Board e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), em debate no Web Summit Rio nesta terça-feira (09). Segundo os especialistas, o país tem concentrado esforços na discussão sobre regras e responsabilidades para o uso da tecnologia, mas ainda carece de uma política voltada à formação de mão de obra, ao desenvolvimento de empresas locais e à adoção da IA como ferramenta de crescimento econômico. “O maior risco para o Brasil é não desenvolver capacidades próprias e se tornar dependente de tecnologias externas”, afirmou Lemos. O especialista também criticou a proposta de regulamentação da inteligência artificial em discussão no Congresso. O PL 2.338/2023, que institui o marco legal para o desenvolvimento e uso da tecnologia foi aprovado pelo Senado Federal e tramita em regime de urgência na Câmara. Segundo ele, a versão aprovada pelo Senado foi inspirada em modelos europeus que já passaram por revisões e não reflete necessariamente as necessidades brasileiras: “Somos o país que fez o Marco Civil da Internet. Não precisamos copiar ninguém”, disse. Lewicki afirmou que o debate sobre IA não deve se restringir à mitigação de riscos e à definição de obrigações para empresas. Segundo ele, governos também precisam discutir políticas públicas voltadas aos impactos da tecnologia sobre produtividade, emprego e educação. Na avaliação de Lemos, uma legislação excessivamente focada em restrições pode dificultar o desenvolvimento do ecossistema nacional de inovação. Por isso, defendeu maior apoio a modelos de código aberto e aos desenvolvedores brasileiros como forma de reduzir a dependência tecnológica do país. Ele também alertou para o risco de aumento das desigualdades caso a adoção da inteligência artificial não seja acompanhada de investimentos em qualificação profissional e educação digital: “Se a gente deixar as coisas como elas são, o que pode acontecer daqui a dez anos é uma ampliação da desigualdade”. Bruno Lewicki — Foto: Shauna Clinton / Web Summit / Sp/Sportsfile