A tecnologia é global. Há algo de estranho se o benefício for só para quem carregar o passaporte americano Sam Altman, CEO da OpenAi, empresa que criou o ChatGPT — Foto: David Paul Morris/Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/06/2026 - 16:00 "Fundo Soberano de IA: Democratização Global dos Benefícios" A criação de um fundo soberano para inteligência artificial (IA) visa democratizar os benefícios dessa tecnologia, que atualmente estão concentrados em países como os EUA. A proposta busca garantir que os avanços em IA sejam acessíveis globalmente, evitando que apenas nações desenvolvidas colham suas vantagens. Isso promoveria uma distribuição mais equitativa dos ganhos tecnológicos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Na sexta-feira, quando deixou a parte reservada do Air Force One para conversar com os repórteres que o acompanhavam no voo, o presidente Donald Trump deixou escapar que avançou nas conversas para criar um fundo soberano de inteligência artificial. A ideia não é dele, está quicando faz tempo. Foi levantada em abril por Sam Altman, CEO da OpenAI. Seu laboratório está para abrir capital na Bolsa, a avaliação especulada é de US$ 850 bilhões. Altman propõe-se a doar uma participação, ainda não se sabe de quanto, ao Estado americano. A ideia é simples: a OpenAI dá lucro num ano, todo cidadão americano ganha um cheque. E o fundo não ficaria só na OpenAI. Buscaria participação nas outras companhias americanas do ramo. Noruega e Alasca têm fundos assim, ambos voltados ao petróleo. No Alasca, desde 1982 todo cidadão recebe um cheque anual, um percentual sobre a renda com o que foi extraído do subsolo. A Noruega faz diferente: não distribui um cheque aos cidadãos, mas pega o que o Estado recebe em tributos de petróleo e investe na economia local. Tem uma regra: nunca compra mais que 10% de qualquer empresa e nunca investe dentro do país. O objetivo é fazer o dinheiro render, mas não a ponto de o governo ter controle sobre uma companhia local. Esses fundos existem para mitigar a maldição do petróleo. É um dinheiro que sai do fundo da terra, traz risco de poluição e em muitos cantos termina por impor ditaduras. Da Venezuela ao mundo árabe, é assim. Então, como o petróleo tem toda sorte de impacto, em vez de desperdiçar os recursos, os fundos tentam transformá-los em riqueza permanente para a sociedade. Criar um fundo assim para IA é, de partida, sugerir que a tecnologia é uma espécie de petróleo. Já que a riqueza vem de um insumo socializado (dados, conhecimento público, pesquisa financiada com imposto), parte do retorno deveria beneficiar a sociedade. Em vez de usar imposto para resolver isso, transforma-se parte da propriedade da companhia em bem comum. A proposta está solta no ar. Trump gostou. O senador mais à esquerda do Capitólio, Bernie Sanders, gostou também. E tem um número na cabeça: 50%. O Estado ficaria com metade de todas as empresas de inteligência artificial. Pois é, Bernie sonha com uma Petrobras americana. É complicado o problema. Ao menos por enquanto, só a OpenAI se ofereceu para doar. Microsoft, xAI, Google e Amazon se fazem de desentendidas. A Meta sumiu do mapa. A Anthropic, do Claude, não fez nada disso. Um executivo consultado pela imprensa americana diz que não está envolvida em qualquer conversa sobre o assunto. A solução proposta por Altman tem dois problemas, nenhum deles pequeno. O primeiro é que nenhuma dessas companhias dá lucro, muito menos oferece dividendo. É bastante possível que se tornem barbaramente lucrativas no futuro, mas não é agora. E não é absurda a ideia de que a tecnologia de IA comece a desempregar bastante antes de os laboratórios que a desenvolveram se tornem máquinas de fazer dinheiro. Quer dizer, o fundo soberano não é uma solução que resolva o problema daqueles cuja vida será afetada nos próximos anos. Imposto, em contrapartida, pode perfeitamente ajudar desde já os afetados. O segundo problema é maior. O ChatGPT fala português porque consumiu o que brasileiros, portugueses, angolanos e outros tantos construíram faz, por baixo, um milênio. O Claude conhece espanhol porque mergulhou naquilo que latino-americanos e ibéricos puseram em texto em tanto tempo quanto. E por aí vai. O petróleo norueguês oferece riscos na Noruega, é certo que um fundo beneficie aqueles expostos ao risco: os noruegueses. Com IA, não é assim. A tecnologia é global. Há algo de estranho se o benefício for só para quem carregar o passaporte americano. Não temos um sistema de governança global. Deveríamos. Problemas ambientais atingem a todos, a crise econômica de um se transplanta no outro num estalo de dedos, e agora IA mexerá na economia de incontáveis países. Mas, claro, vivemos também um surto de nacionalismo, e isso não virá tão cedo. A solução de um fundo soberano de IA para os Estados Unidos pode ou não resolver o problema lá. Se acontecer, tende a concentrar o poder do país no século XXI. Ao resto do mundo, restará aumentar a taxação.