A inclusão digital no Brasil ganhou uma nova e veloz camada no ano passado: o uso de ferramentas de inteligência artificial (IA). Pela primeira vez, a pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo Cetic.br com uma amostra de 27,1 mil lares, mapeou o tema e revelou que 32% dos internautas do país utilizaram IA generativa nos três meses anteriores ao estudo. No entanto, conforme o levantamento, a adoção da tecnologia reflete a desigualdade histórica do país, concentrando-se na classe A (69%) e entre quem tem ensino superior (59%). O avanço da IA no país ocorre em um cenário onde o acesso básico e a infraestrutura física ainda impõem grandes desafios. Embora 86% dos domicílios brasileiros estivessem conectados em 2025 - um salto expressivo frente aos 18% registrados em 2008 -, a exclusão digital persiste nas pontas. Atualmente, a maioria desses lares depende da banda larga fixa (73%), enquanto 15% utilizam prioritariamente a rede móvel. Esse desenho técnico fez o Brasil encerrar o ano com 53,9 milhões de acessos fixos, o que representa uma alta de 2,6% em relação a 2024. Apesar do crescimento, barreiras econômicas crônicas e os chamados “desertos de conectividade” ainda limitam o avanço real da inclusão. “Entre os domicílios sem acesso à internet, a falta de disponibilidade da rede foi citada como o motivo principal por 8% dos entrevistados das áreas rurais, comparado a 1% das pessoas das áreas urbanas”, afirma Fábio Storino, coordenador da pesquisa TIC Domicílios. A região Norte lidera a proporção de lares desconectados (6%). Para mitigar isso, o Programa Norte Conectado prevê 9 infovias e 13,2 mil km de cabos subfluviais para beneficiar 7,5 milhões de pessoas, interligando Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. As primeiras rotas conectaram Macapá (AP) a Santarém (PA) e Manaus (AM) pelo Rio Amazonas. A Anatel também converteu multas em R$ 215 milhões de investimentos em 2025, destinando recursos para conectar escolas e instituições públicas de nível superior à Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). Gustavo Borges, superintendente-executivo da Anatel, destaca o recente leilão da faixa de 700 MHz, que fatiou o espectro para novos entrantes. “As empresas ganhadoras têm a obrigação de levar o 4G a todas as localidades com mais de 600 habitantes e cobrir as principais rodovias do Brasil”, afirma. O crescimento do tráfego, contudo, pressiona os pequenos provedores. De acordo com Storino, a expansão esbarra em gargalos operacionais. “O crescimento do tráfego exige investimentos na qualidade das conexões, com a ampliação dos pontos de troca de tráfego [PTT] e a entrega do protocolo IPv6, travados por obstáculos financeiros e de recursos humanos, principalmente entre provedores de pequeno porte.” A inclusão digital não se resume a acesso. Para Simone Freire, fundadora do Movimento Web Para Todos (MWPT), é preciso navegar, interagir, comprar e estudar com autonomia. Desde 2017, o MWPT mobilizou empresas, órgãos públicos, varejistas e fundações em ações de conscientização. Ela celebra a publicação da ABNT NBR 17225, norma brasileira de acessibilidade digital, como um marco para sites e aplicativos, mas faz um alerta sobre soluções superficiais do mercado. “É um risco, porque não se resolve só com tecnologia adicionada depois. A acessibilidade precisa estar incorporada ao processo de criação e manutenção dos canais digitais.”