Pesquisa mostra que 68% da população do país já utiliza ferramentas de inteligência artificial no cotidiano Uso da IA vai de cálculo de calorias a montagem de treino, passando por 'diagnóstico' veterinário — Foto: Magnific RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/06/2026 - 19:01 Uso de IA cresce no Brasil, mas desconfiança e medo persistem Uma pesquisa revela que 68% dos brasileiros usam IA no cotidiano, mas 59% ainda desconfiam das informações geradas. Jovens como Nathalia Sahione, estudante de Medicina, e Fábio Augusto, de Administração, destacam a utilidade prática da IA, embora reconheçam uma certa dependência. A preocupação com a privacidade e a substituição de empregos também é significativa, com 38% dos trabalhadores temendo perder espaço para a tecnologia. O Brasil, com 49,8 pontos no IA Index, está abaixo da média global, refletindo uma relação complexa e crítica com a IA. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A jovem Nathalia Sahione, de 20 anos, aluna do 7º período de Medicina, diz já diz que já não sabe mais como é viver sem inteligência artificial. Ela usa a ferramenta para resumir textos, treinar questões e entender cálculos da faculdade. Como responsável pela atlética do curso, também recorre à IA para criar artes e sugerir conteúdos para as redes sociais. O uso vai além: a estudante conta que já pediu para a tecnologia calcular as calorias de três balas, montar um treino antes de contratar um personal trainer e até avaliar a gravidade dos sintomas de sua cachorra, que estava passando mal. Após receber a resposta, decidiu levá-la ao veterinário. — A inteligência artificial me ajuda em praticamente tudo. Na faculdade, uso para resumir textos, treinar questões e entender cálculos. Na atlética, também já recorri à ferramenta para criar artes e conteúdos para as redes sociais. Quando a gente aprende a usar, a IA vira uma companheira. Não sou dependente, mas posso dizer que faz diferença — afirma. Assim como Nathalia, 68% dos brasileiros utilizam ferramentas de inteligência artificial no cotidiano, segundo pesquisa do instituto Market Analysis. De acordo com o levantamento, entre os usuários de IA no país, 56% afirmam que as ferramentas são acessíveis e fáceis de usar, enquanto 52% dizem que a tecnologia contribui para aumentar a produtividade e a eficiência no dia a dia. Apesar da popularização da tecnologia, 59% da população brasileira ainda afirma não confiar nas informações geradas pela tecnologia. O cenário é ainda mais negativo em relação à percepção de aceitação social da IA: apenas 40% dos entrevistados dizem perceber receptividade ao uso da ferramenta em seus círculos de convivência. Para Evelin Cardoso Gomes, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pesquisadora do INCT IAmazônia, a IA traz muitos benefícios, mas seu uso precisa ser responsável: — A Inteligência Artificial veio para ampliar as capacidades humanas, não substituí-las. A discussão hoje já não é mais se iremos adotar IA, mas de que maneira isso será feito. E é justamente aí que está o ponto essencial: adotar essa tecnologia sem critério pode ser tão prejudicial quanto não adotá-la. Por isso, mais do que abraçar os benefícios que a IA oferece, precisamos garantir que esse uso aconteça de forma organizada, ética e, acima de tudo, responsável. Porque a tecnologia, por si só, não define seu impacto. Quem define somos nós, pela forma como escolhemos utilizá-la — diz. Acender e apagar a luz do quarto, pedir para tocar música e controlar a temperatura do ar: essas são algumas das funções que a inteligência artificial desempenha na rotina do estudante de Administração Fábio Augusto de Jesus, de 22 anos, que afirma confiar na tecnologia e tratá-la como parceira. Ele conta que utiliza o recurso para planejar e organizar cronogramas de eventos realizados na igreja que frequenta, onde atua como líder dos adolescentes. Os acessórios de Fábio também são tecnológicos. O fone de ouvido tem cancelamento ativo de ruído, comandos por voz e integração com assistentes virtuais. Já o smartwatch (relógio inteligente) conta passos, gera métricas para musculação, recebe notificações e permite atender ligações. Na área da saúde, o aparelho mede a frequência cardíaca, emite alertas sobre batimentos irregulares e, inclusive, ajudou o estudante a descobrir que sofre de apneia do sono. Fábio pegou o relatório de qualidade do sono gerado pelo relógio, pediu a uma IA que analisasse os dados e, diante da suspeita apontada pela ferramenta, procurou um médico. Após consulta com um otorrinolaringologista e realização de exames, o distúrbio foi confirmado. O jovem afirma que a IA tem grande importância em sua vida, mas admite que a relação com a tecnologia hoje é de dependência, algo que o incomoda. — Hoje, e isso me incomoda, digo que sou dependente. Já estou acostumado a dar comandos de voz, acabo entrando em uma zona de conforto e já não sou tão criativo — fala. Além do receio de desenvolver dependência, a inteligência artificial desperta outros temores entre os brasileiros. De acordo com a pesquisa, dois em cada três entrevistados relatam algum nível de medo ao utilizar IA. As principais preocupações estão relacionadas à privacidade de dados, à disseminação de informações falsas e à substituição de humanos pela tecnologia. Receio no mercado de trabalho No mercado de trabalho, 38% dos brasileiros empregados afirmam temer perder espaço para a IA. O percentual está próximo da média global, de 36%, e abaixo dos registrados em países como Peru (64%) e Equador (60%). A preocupação é mais intensa entre trabalhadores das classes D e E (40%), pessoas de 35 a 54 anos (41%) e mulheres (41%). Engenheiro e sócio de uma empresa especializada em agentes de IA, Marc Chevallier afirma não temer ser substituído pela tecnologia e diz utilizá-la diariamente para analisar contratos, notas fiscais e licitações. Para ele, os agentes de IA — sistemas capazes de executar tarefas de forma autônoma, sem depender de comandos constantes — representam uma revolução dentro do próprio universo tecnológico. — A inteligência artificial hoje é indispensável. Mas o que realmente transforma o mercado são os agentes: eles fazem apresentações, realizam compras, reservas e até respondem mensagens. Há alguns anos, isso parecia impensável — afirma. Diferentemente das ferramentas tradicionais, que apenas respondem perguntas ou geram conteúdo, os agentes interpretam objetivos, planejam etapas e agem de forma independente, automatizando desde agendas até processos inteiros dentro de empresas. Brasil fica abaixo da média mundial Hoje, o Brasil marca 49,8 pontos no IA Index, indicador que mede o nível de relação da população com a inteligência artificial em uma escala de 0 a 100. Com o resultado, o país aparece abaixo da média global, de 54,5 pontos, ocupando a 30ª posição entre 44 países, embora tenha registrado avanço de dois pontos em relação a 2025. Responsável pelo levantamento, a Market Analysis define a pesquisa como uma “oportunidade única de posicionar o Brasil em um debate global que vai muito além da tecnologia”. Segundo o instituto, os dados revelam que os brasileiros mantêm uma relação mais complexa e madura com a inteligência artificial do que o senso comum sugere: ao mesmo tempo em que utilizam e reconhecem os benefícios da tecnologia, também demonstram olhar crítico em relação aos riscos. Para a instituição, o equilíbrio entre adoção e ceticismo é, por si só, um dado relevante para empresas, formuladores de políticas públicas e para a sociedade como um todo. *Estagiário sob supervisão de Daniela Dariano