Levantamento feito em Campinas aponta a desigualdade do impacto dos extremos do clima sobre a população e pretende ajudar na formulação de políticas públicas e investimentos privados para destravar o desenvolvimento 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Enchentes no Rio Grande do Sul — Foto: Reprodução/Jornal Nacional Em uma semana em que temporais deixaram cidades do Sul em alerta e vendavais prejudicaram os transportes e interromperam o fornecimento de energia para milhares de pessoas no Sudeste, uma pesquisa mostra, para quem ainda enxerga as mudanças climáticas como um conceito abstrato, que elas já influenciam as expectativas de futuro dos jovens. É o que revelaram cerca de 60% dos moradores de Campinas (SP), entre 15 e 29 anos, ao primeiro diagnóstico do projeto Juventudes, Raça e Mudanças Climáticas em Campinas (JUCAMP). Mais de um terço dos entrevistados (34%) afirmou que passou a questionar se quer ter filhos por causa da crise climática. O levantamento — realizado pelas organizações Em Movimento e Minha Campinas, com assessoria técnica da Rede Conhecimento Social (ReCoS) e investimento da Fundação FEAC — mostra que os efeitos das mudanças climáticas são desiguais em Campinas. Quem mais sente os impactos do calor extremo, das enchentes e da falta d'água são os jovens das periferias, que vivem em bairros com infraestrutura precária, estudam na rede pública e dependem do transporte coletivo. Uma situação que se repete em todo o Brasil. — A capacidade de adaptação, mitigação e resiliência depende diretamente das condições materiais e sociais de cada grupo. Por isso, renda, raça, território e, em muitos casos, o acesso à educação influenciam a forma como os jovens vivenciam esses impactos. Um jovem negro, morador da periferia, por exemplo, enfrenta uma realidade diferente daquela de um jovem que vive em um território com melhor infraestrutura e maior acesso a serviços públicos. Da mesma forma, estudar em uma escola sem climatização adequada durante períodos de calor extremo afeta diretamente as condições de aprendizagem. Isso mostra que os efeitos das mudanças climáticas são atravessados pelas desigualdades sociais e raciais e acabam aprofundando vulnerabilidades que já existiam — afirma Iasmim Vieira, coordenadora de projetos da Em Movimento. Segundo Iasmim, o estudo evidencia que a precariedade da infraestrutura transforma a crise climática em um obstáculo direto ao desenvolvimento desses jovens. As entrevistas mostram que os impactos sobre a vida escolar e o trabalho ocorrem, sobretudo, por causa das dificuldades de mobilidade e das deficiências da infraestrutura urbana. — Um dos relatos destaca que "o transporte é uma questão ambiental", porque as condições de deslocamento variam conforme o território onde a pessoa mora, afetando o acesso à cidade, ao trabalho, à educação e até aos projetos de vida. Outro entrevistado ressalta que, em dias de chuva, o transporte público deixa de funcionar adequadamente em algumas regiões, dificultando a circulação dos jovens. Um dos objetivos do estudo é justamente subsidiar políticas públicas e privadas capazes de mitigar os impactos das mudanças climáticas, especialmente sobre a população mais vulnerável. É sobre esse desdobramento que a equipe do projeto está trabalhando neste momento. A meta, segundo Larissa Fontana, secretária-executiva da Em Movimento, é replicar a pesquisa em outras cidades de diferentes regiões do país. — Isso nos dará elementos mais concretos para mostrar à sociedade e aos tomadores de decisão como as mudanças climáticas afetam a geração de jovens que temos hoje no Brasil e como isso produz efeitos para o futuro do país, seja na economia, na renda e no trabalho, nos direitos, na cultura, na tecnologia ou na sustentabilidade. Confira os principais números do levantamento 58% dizem que o clima afeta planos de futuro 34% questionam ter filhos por causa da crise climática73% dos jovens enfrentam dificuldades para se locomover de ônibus em dias de chuva forte 70% relatam quedas de internet por causa do clima 75% sofrem com falta de energia elétrica em ventanias69% percebem impactos no desempenho escolar ou profissional30% sempre faltam ou se atrasam para compromissos e 39% às vezes devido a tempestades ou calor extremo 68% dos entrevistados avaliam pessoas pobres e pessoas ricas sofrem os efeitos das mudanças climáticas de maneiras diferentes