No sábado 25, no Pacaembu, a convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência exibiu num telão um vídeo no qual a imagem e a voz de Jair Bolsonaro, recriadas por Inteligência Artificial, diziam-se “preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária” e pediam ao público que recebesse o filho “de braços abertos”, como quem foi escolhido para substituí-lo. A peça avisava, logo de início, que era uma simulação.

Esse aviso é o ponto. Ele desarma a pergunta com que nos habituamos a enfrentar a IA nas eleições – o conteúdo é falso? – e nos obriga a outra, bem mais difícil: uma simulação assumida pode exercer, em nome de alguém, uma função política que essa pessoa está juridicamente impedida de exercer?

Convém resistir tanto ao pânico quanto à banalização. A pesquisa comparada disponível não sustenta que um vídeo sintético isolado decida eleições. O efeito mais consistente é outro e mais insidioso: a IA barateia, acelera e multiplica a produção de comunicação política e, ao tornar tudo potencialmente fabricável, corrói a capacidade coletiva de distinguir o autêntico do falso. Daí o “dividendo do mentiroso”. Não é preciso que o eleitor acredite na mentira, basta que fique em dúvida sobre a verdade. O dano relevante é menos ao eleitor individual do que ao ambiente informacional que sustenta a competição.