Maurício Pereira passou boa parte da carreira tentando escrever de um jeito que nunca foi exatamente o seu. Admirador confesso da simplicidade de Erasmo Carlos e da canção popular direta, carregou por anos a sensação de que precisava ser mais inteligível, menos tortuoso. Só depois de décadas de carreira, de uma temporada na psicanálise e de um isolamento que coincidiu com a pandemia de Covid-19, concluiu que a busca era inútil. Nunca seria aquele compositor. E, finalmente, deixou de tentar.

Essa mudança de perspectiva desemboca em "O Dia da Girafa", primeiro álbum de inéditas lançado pelo paulistano em oito anos. No disco, Pereira se afasta das canções que lembram crônicas, que observavam a cidade e seus personagens e pequenos acontecimentos cotidianos. Agora elas parecem acontecer quase inteiramente dentro da própria cabeça. "Em tempos normais, sou cronista. Sob pressão, funciono mais poeticamente", diz.

As letras nasceram durante a pandemia, período em que, além do confinamento, Pereira acompanhava a escalada de mortes provocadas pela Covid e vivia sob o governo Jair Bolsonaro.

O Dia da Girafa é comemorado em 21 de junho, considerado o mais longo no hemisfério norte, marcando o solstício de verão. Faz algum sentido, então, batizar um disco feito na pandemia, quando os dias eram infinitos. Para um músico acostumado a passar boa parte do tempo em palcos e estradas, o silêncio imposto pelo isolamento acabou encontrando uma saída na escrita.