Cantor tem novo trabalho lançado por selo de jazz alemão, mas voltado ao público brasileiro, e vê 'realização de sonho' em virar personagem de HQ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O cantor Ed Motta — Foto: Ana Branco RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O cantor enfrentou investigações por suposta injúria xenófoba no Rio de Janeiro. Ele se desculpou publicamente gravando um vídeo com uma canção do paraibano Cassiano. Em setembro, Ed Motta lança "Toc toc", seu primeiro álbum em português em 13 anos. O single "Eu quero ser feliz" já está disponível nas plataformas digitais. O artista também celebra os 30 anos de seu clássico disco de 1997 com turnê nacional. Além disso, ele virará personagem de uma série de quadrinhos de mistério. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Dois mil e vinte e seis tinha tudo para ser conhecido como o ano em que Ed Motta, de 54 anos, foi parar na delegacia: em maio, o cantor foi intimado a prestar depoimento, no Rio, numa investigação em que era acusado de injúria por preconceito. Isso por causa de um xingamento xenófobo (“paraíba”) que teria proferido contra o barman de um restaurante, ao ser contrariado pela exigência do pagamento de uma taxa de rolha. Um áudio de 2025, com o mesmo xingamento a um funcionário do local, fornecido pelo dono do estabelecimento, aumentou a temperatura da polêmica. Dias depois, Ed fez em vídeo um mea culpa (ao seu jeito) cantando “Coleção”, canção de sucesso do mestre paraibano da soul music Genival Cassiano (“Meu pedido de desculpas, meu pedido de perdão, ao povo do Nordeste brasileiro, principalmente da Paraíba, vem através da música, da arte (...) Viva o Nordeste brasileiro, viva a Paraíba!”, disse). A internet não perdoou, mesmo assim. (A assessoria da Polícia Civil informa que “a investigação está em andamento e segue sob sigilo”.) Ed Motta dá versão sobre confusão em restaurante no Rio: 'Fiquei bêbado e joguei uma cadeira no chão, mas nada em direção a ninguém' — Foto: Reprodução Mais alguns dias, e lá estava o cantor, diante do público, em show que o Circo Voador resolveu manter, mesmo diante de toda a fama de Inimigo Público Nº 1 que ele havia angariado nas redes. Na primeira música, alguém atirou uma rolha. — A rolha não foi jogada em mim, jogaram ela no palco. Eu vi e achei engraçado demais. A minha maior curiosidade era saber qual era o vinho, e era um vinho português. Jogaram uma coisa legal — comenta Ed Motta ao GLOBO, após um longo silêncio público. — Foi mágico, fiquei surpreso, porque fui para lá com medo da receptividade. E tive uma surpresa grata, foi um dos shows mais importantes da minha carreira. Muito aplaudido pela casa cheia (ainda mais depois de cantar “Coleção” e dizer “não posso começar esse show sem prestar homenagens à Paraíba, porque vacilei feio”), Ed saiu do Circo um tanto aliviado. Mas, nas redes, os ataques seguiram. — Não foi a primeira vez que isso aconteceu (de fato, Ed enfrentou reações em outros tempos, como quando disse que não cantaria nem falaria português em seus shows na Europa). Foi muito desagradável, muito pesado, muito ruim, não desejo isso para ninguém. Tem um efeito internet nisso que não reflete a realidade, uma amplificação desproporcional — diz. — Gostaria muito que fosse a última superamplificação, não quero confusão na minha vida. A vida tem que seguir. Estou vivo, preciso trabalhar, preciso fazer as coisas. O cantor Ed Motta — Foto: Ana Branco Agora é tempo de “Eu quero ser feliz”. Lançada no último dia 17, a música é o primeiro single de “Toc toc”, álbum que o cantor lança em setembro. É o seu primeiro disco cantado em português em 13 anos, e o primeiro na língua pátria que edita pelo selo alemão de jazz MPS. Vinil pelo mundo Pelo título, se poderia dizer que a canção é uma resposta a tudo pelo que Ed veio passando. Mas não: o disco está pronto — gravado e mixado — desde o começo do ano. Ele é a grande — ou, ao menos, a melhor — novidade do artista para 2026, junto com a de que acaba de virar personagem da série de quadrinhos “As aventuras de Ed Motta: Aplausos e enigmas”, de PH Tirre e Manoel Magalhães. — Fiquei preocupado, porque os caras (da MPS) me contrataram por outros motivos, pelo repertório em inglês, mas eles sempre deram liberdade para todo mundo — conta Ed. — Tem uma força da música brasileira lá fora cada vez maior, uma coisa da música em português que está na moda pra caramba. Mas eu fiz esse disco pensando bastante no mercado brasileiro, para que ele tivesse uma expressão bacana por aqui Ed Motta gravou e mixou “Toc toc” todo em casa. Praticamente tudo no disco foi tocado (e cantado) por ele e pelo tecladista Michel Limma, diretor musical de sua banda. As letras foram escritas pelo cantor junto com a mulher, Edna Lopes, com quem havia trabalhado em seus últimos discos em português, “Piquenique” (2009) e “AOR” (2013). Além do streaming, o álbum sai em CD e vinil na Alemanha e no Japão. Há planos de uma edição em vinil para o Brasil. “Eu só quero ser feliz” (“Não componho uma música com um refrão assim forte há muito tempo”, orgulha-se Ed) traz a marca que permeia boa parte das músicas do disco: a influência do funk eletrônico de grupos como S.O.S. Band e Cameo, um som que dominou as rádios do mundo entre 1982 a 1985 e que Ed reproduziu com equipamento de época, sintetizadores e baterias eletrônicas de sua coleção. — Uma das grandes influências do disco é a da dupla (de produtores) Jimmy Jam e Terry Lewis, que faziam as coisas do selo Tabu. Aí tinha Cherelle, Alexander O’Neal, todos esses artistas que eles produziam — lembra ele. — Fora esse elemento eletrônico, o que tem de marcante em “Toc Toc” é o fato de que todos os meus discos na última década têm uma orquestração muito forte, muitas camadas, e aqui eu quis fazer um negócio minimalista. Mano Brown e Yoùn As primeiras pessoas que escutaram o disco foram o Mano Brown e o Ice Blue, dos Racionais MCs. E o Mano Brown falou: “Você está indo por um caminho em que a gente já foi, o de buscar o menos.” Para Ed Motta, “Toc Toc” recupera um pouco, ainda, o espírito radiofônico de um Rio de Janeiro do começo dos anos 1980 (“É música que podia ser arranjada pelo Lincoln Olivetti; ‘A Marina acende’ é totalmente Marcos Valle e João Donato”, detecta), trazendo charmes como uma bossa nova eletrônica (“De frente pro mar”) e a sofisticação harmônica do jazz em “O grande plano”. Ed acredita que o seu novo disco vá pegar em cheio uma juventude ligada no som retrô. — Tenho visto no gráfico do Spotify. No fundo, a minha geração não é o forte, não é a que mais me escuta, não é o pessoal que tem 50 anos, é um pessoal um pouco mais jovem — diz ele, só elogios para músicos da nova safra de MPB como o Yoùn (dupla da Baixada Fluminense, que se apresentava na linha Japeri do trem) e a sul-matogrossense Marcela Mar (“Ela compõe assim igual ao Guinga e toca um violão incrível”). Célebre por ter sido representado nas capas de alguns dos seus discos como um personagem de histórias em quadrinhos (em desenhos feitos pela mulher, Edna), o cantor se anima em se ver nas páginas de “As aventuras de Ed Motta: aplausos e enigmas”. — Sou um detetive brasileiro que mora em Londres, e isso deve sair no final deste ano ou no ano que vem — conta. — Na verdade, o personagem tinha outro nome e perguntaram se podia botar o meu, porque era uma caricatura minha. E aí eu falei que podia. Para mim, vai ser maravilhoso, é a realização do sonho virar um personagem. Não é nada autobiográfico, é um detetive, é storytelling. Mas não li a história, ela ainda está ficando pronta. Enquanto isso, Ed vai fazendo os shows comemorativos dos 30 anos do álbum “Manual Prático para Festas, Bailes e Afins Vol. 1” (de 1997, dos hits “Daqui pro Méier”, “Vendaval” e “Fora de lei”). Na trilha da Disney Com datas marcadas para Curitiba (29 de agosto, no Teatro Positivo) e São Paulo (16 de outubro, no Teatro Bradesco), esse espetáculo reúne todos os seus hits, “duas ou três músicas do novo disco” e “No meu coração você vai sempre estar”, versão em português que ele mesmo fez para “You’ll be in my heart”, de Phil Collins, incluída na animação “Tarzan”, da Disney. — Eu nunca tinha cantado isso ao vivo. A verdade é que até tinha uma certa implicância, mas, depois do “AOR”, eu passei a olhar essa trilha (de “Tarzan”) de outra forma. Eu achava muito cheesy (cafona) e aí eu passei a amar porque era cheesy, tipo “putz, esse queijo tá maravilhoso, mano!” — conta Ed. — E, quando veio essa história de fazer o show “Manual Prático 30 anos”, eu falei: “Puxa, eu vou botar um negócio que vai engrossar o caldo do elemento hitmaker”, para ter um show só com músicas conhecidas. O cantor diz ter vivido por anos “uma dicotomia imensa” em relação à exposição às massas. Agora, está em paz. — Eu venho de uma banda de hard rock, venho de uma escola em que ser popular não era legal, em que o objetivo era atingir o nicho. Hoje, eu tenho problema zero com músicas tipo “Manuel”, que eu implicava em cantar e de que hoje eu gosto, acho que o “Manuel” parece funk inglês dos anos 1980, ele tem uma simplicidade do começo do (grupo inglês) Incognito — diz ele, definitivamente voltado hoje para o público brasileiro. — Não quero mais fazer quatro turnês na Europa por ano, é muito cansativo por causa das viagens. Mas não quero cuspir no prato em que comi. Foi a Europa que me salvou num desses cancelamentos, na época que eu falei que não queria mais cantar em português. Para quem sempre gastou dinheiro com as mesmas coisas (discos, livros, vinhos e comida), Ed Motta revela uma nova obsessão: a alfaiataria. — Se eu pudesse, mandava fazer um paletó por mês. E tem a coleção de sapatos, de abotoaduras, de gravatas borboleta... isso virou o meu segundo vinil. Eu não sigo moda nenhuma. Me vejo um pouco como um dândi... um dândi tijucano — admite Ed, cliente de um alfaiate em São Paulo. Mas algo mudou: durante a pandemia, o cantor baixou de 30 mil para cerca de 20 mil a sua coleção de LPs. E, isso, simplesmente porque vendeu as duplicatas. — Eu tinha duplicatas, triplicatas, quadriplicatas, coisas malucas, entende? Cara, eu tinha coleções todas lacradas. Hoje, estou curado do colecionismo. Vou a São Paulo e venho com dois discos na mão. Antigamente sempre foram bolsas e bolsas e bolsas e escolhendo sem pensar — diz ele, que tem ouvido música bem mais por streaming (no Tidal e no Qobuz, aplicativos de música focados em som de altíssima qualidade) do que em vinil.
Após briga em restaurante, Ed Motta viaja pelo país com show: 'Não quero confusão. A vida tem que seguir'
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