Compositor e grupo vocal relembram momentos da carreira e mostram novo disco em show, no sábado, que será a primeira vez do autor de "Ponteio" no palco da Lapa, antes de turnê por Brasil e Europa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Edu Lobo e o grupo Boca Livre. Em sentido horário: David Tygel, Edu, Lourenço Baeta, Zé Renato e Maurício Maestro — Foto: Ana Branco RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O show conjunto de Edu Lobo e Boca Livre, que estreia neste sábado no Rio de Janeiro antes de seguir em turnê nacional e europeia, celebra quase 50 anos de parceria e o álbum lançado em homenagem ao compositor. O espetáculo marca a estreia de Edu Lobo no palco do Circo Voador e apresenta clássicos como "Beatriz" e "Ponteio", além de uma versão totalmente repaginada de "Arrastão". CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO “Eu levo os engenheiros todos para mostrar minha obra!”, anima-se Edu Lobo, de 82 anos, em um dos momentos de descontração do ensaio com os seus antigos amigos do quarteto vocal Boca Livre. Depois de quase 50 anos de convivência (no caso de alguns dos integrantes, quase 60), enfim o cantor e compositor foi homenageado com um álbum do grupo, “Boca canta Edu”, lançado em maio. Mas como um disco era pouco para botar tanto assunto em dia (e Edu se entusiasmou tanto com o trabalho), eles acharam que deveriam estender o encontro para os palcos. Neste sábado, os cinco estreiam no Circo Voador, no Rio, o show conjunto. E pegam a estrada. Em setembro, Boca e Edu se apresentam em Ilhabela (dia 5, no Instituto Vermelhos) e Porto Alegre (9, no Teatro Bourbon). Em outubro, rola uma turnê europeia, que passa por Lisboa (dia 6, no Tivoli), Barcelona (7, no Casino L’Aliança del Poblenou), Londres (12, no Jazz Café) e Porto (14, na Casa da Música). Em novembro, por fim, eles voltam ao Brasil para shows em Ribeirão Preto (dia 7, no Multiplan Hall) e Brasília (14, no Centro de Convenções). Apresentação da música Ponteio, com Marília Medalha, Edu Lobo e o grupo Momento Quatro (da esquerda para a direita : Zé Rodrix, Ricardo Vilas, David Tygel e Maurício Maestro) — Foto: Divulgação/Wilson Santos CPDOC JB Esta é uma história que começa em 1967, quando Edu Lobo conhece os futuros Boca Livre Maurício Maestro e David Tygel, adolescentes ainda, com o grupo vocal Momento Quatro, formado também por Zé Rodrix e Ricardo Villas. — Edu tinha acabado de ser contratado pela Philips, e um dos produtores da gravadora, o Fernando Lobo, seu pai, falou para a gente: “Olha, o Edu está querendo um grupo vocal para cantar com ele no Festival. Eu falei de vocês, vocês topam?” — recorda-se Maurício. — A gente se apresentou no estúdio, foi à casa dele e depois foi ensaiar em São Paulo para gravação com o Quarteto Novo e a Marília Medalha. Foi um negócio assim fantástico, nós entramos bem naquela efervescência dos festivais. A canção era “Ponteio”, parceria de Edu Lobo com o poeta José Carlos Capinam, que venceria aquele Festival de Música Popular Brasileira da TV Record de 67. — A gente era afinadinho, mas era insuportável. O (cantor e compositor) Sidney Miller chamava a gente de Tormento Quatro — brinca Maurício Maestro, lembrando que eles se apresentaram logo depois do “Beto bom de bola”, em que Sérgio Ricardo, revoltado com as vaias da plateia, quebrou seu violão. — Em “Ponteio” tem aquela frase “jogaram a viola no mundo, mas fui lá no fundo buscar”. Eu falei: “Ih, agora é que vem na gente!” A vida seguiu, o Momento Quatro gravou um LP em 1968 (com “Veleiro”, de Edu) e os caminhos se separaram. Maurício ainda esbarrou com Edu quando se juntou ao grupo que se apresentava com Vinicius de Moraes na Argentina — o cantor chegou com o pianista Tenório Júnior, que um ano depois seria morto, em Buenos Aires, por agentes da ditadura (ele foi dado como desaparecido e seu corpo só foi identificado no ano passado). Mais tarde, o cantor e baixista faria direção musical e arranjos para o LP “Limite das águas”, que Edu Lobo lançou em 1976 — uma das faixas desse disco, “Uma vez um caso”, foi regravada em “Boca canta Edu”. Em 1978, Maurício já tinha formado o Boca Livre com David Tygel, Zé Renato e Claudio Nucci (que deu lugar em 1980 a Lourenço Baeta, até hoje no grupo). O quarteto estreou participando de “Camaleão”, LP de Edu. E, quando ainda nem tinham um disco seu, circularam com o cantor pelo Nordeste e Norte em shows do Projeto Pixinguinha. Edu Lobo conta que chegou a entregar a fita do Boca Livre para um produtor que conhecia. — Eu nunca tinha feito isso na minha vida, mas com eles eu fiz. Mandei a fita, e achei que estava dando um presente para o produtor. Dois ou três dias depois ele me ligou, falou: “Ó, Edu, os produtores da casa disseram que já tem o MPB 4, já tem o Quarteto em Cy, já tem Os Cariocas, mais um quarteto vocal a gente não vai querer” — lembra. — Eles se foderam, desculpe a expressão. Porque depois o Boca Livre fez um disco sozinho, sem patrocínio, sem porra nenhuma, e vendeu cem mil cópias porque tinha uma música absurdamente linda, que todo mundo entende, que você canta e todo mundo gosta. Zé Renato lembra da frase que ouviu na mesma época, de um outro produtor, que já morreu: — Ele escutou a gente e falou assim: “Olha, tá bonito, mas vocês deveriam ser os Bee Gees brasileiros!” — ri Zé (e riem todos). O grupo Boca Livre, na capa de seu LP de estreia, de 1979: David Tygel (à esq.), Zé Renato, Maurício Maestro e Cláudio Nucci — Foto: Reprodução O tempo passou, o Boca Livre seguiu carreira de sucessos, mas até pouco tempo atrás só tinha gravado uma música de Edu Lobo, “A Terra do Nunca”, no álbum “Amizade” (2013). — Eu passei um bom tempo xingando vocês! Logo eu, que dei tanta força! — indigna-se performaticamente Edu. Na hora de tirar o atraso, o grupo se viu com uma delicada tarefa: como escolher o repertório do disco? Como as músicas eram muitas, cada um dos integrantes sugeriu as suas. Entraram parcerias com Capinam (“Viola fora de moda”, “Corrida de jangada”), Cacaso (“Uma vez um caso”, “Sanha na mandinga”), Paulo César Pinheiro (“Dos navegantes”), Aldir Blanc (“Ave rara”) e Ronaldo Bastos (“Zanga zangada”). O que resultou num disco pouco óbvio de Edu, a começar pela inclusão de “Veneta”, música com Chico Buarque, composta para o musical “Cambaio” (2001), de João e Adriana Falcão. — Lembro que falei: “Chico, eu tô te mandando a música agora, ela nem vale a pena, mas você dá um jeito na letra.” Ele fez uma letra espetacular, a Gal (Costa) gravou, mas, mesmo assim, eu não fiquei contente, porque achava a música uma merda — diz Edu, sem anestesia. — Agora eles fizeram um arranjo maravilhoso e “Veneta” é a música que abre o disco. Edu conta de quando o Boca Livre foi em sua casa para mostrar o repertório do disco. — Aí, sei lá, na quinta ou sexta música, eu falei: “Olha, tô legal com o meu repertório, só tem uma música que, vou ser sincero com vocês, eu não canto há muitos anos e não gostaria que ninguém cantasse nunca mais na minha vida: ‘Arrastão’!” — diverte-se ele, porque é claro que a canção estava na lista. — E aí não só eles gravaram como eu cantei um pedaço da música. Eu implicava com a forma que ela tinha sido feita, que era uma coisa da época, cheia de vícios. Mas aí o Maurício Maestro fez um trabalho excepcional, mudou completamente a cara da música. É um pouquinho mais do que arranjo isso, é recomposição de uma música. Só tem um negócio: essa versão não ia ganhar um festival nunca! Mas ia ser tão melhor para a música... Uma das cantoras favoritas de Edu Lobo, Vanessa Moreno gravou participação no disco do Boca Livre em “Corrida de jangada”. E, para “Ave rara”, eles chamaram o MPB4. — Eu até gravei uma demo para mostrar o arranjo, o Lourenço ouviu e falou: “Ah, tá legal, mas é a cara do MPB 4!” Eu até ficava: “Será que eu mudo?” E todo mundo: “Não, chama o MPB4 para cantar!” — conta Maurício, lembrando que o primeiro encontro dos dois grupos vocais em uma gravação havia sido em “Se o meu jardim der flor” (Zé Renato e Xico Chaves) no terceiro álbum do Boca Livre, “Folia” (1981). No show conjunto, Edu Lobo participa de “Candeias” e “Arrastão” (as que gravou no disco) e de “Ponteio”. Sem os vocais do Boca, ele faz duas: “Para dizer adeus” (parceria com o poeta Torquato Neto) e “Beatriz” (seu clássico com Chico Buarque, do musical “Grande Circo Místico”). Será a primeira vez de Edu no palco do Circo Voador, onde o Boca Livre (depois de um Grammy de melhor disco de pop latino em 2023 e de um show no festival Coala em 2024) costuma encontrar um público renovado. — Tenho percebido uma mistura de gerações nos nossos shows. Tem as pessoas que acompanham a gente desde o início, mas tem o filho e o neto, que também vão. E no Circo Voador isso fica muito explícito, porque é um espaço onde o público é muito misturado — observa Zé Renato. Já Edu teve recentemente relançado em LP pela Três Selos Rocinante o seu disco “Edu canta Zumbi”, de 1968, do selo Elenco. Era a trilha para o espetáculo “Arena conta Zumbi”, de 1965, com textos de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. — Não gosto da gravação dessa trilha, acho um disco ruim, sempre achei. Mas eles acharam bom e fizeram uma coisa bonita — opina, com a franqueza habitual, esse mestre que não tem mais composto com a mesma frequência de outros tempos. — Antigamente, a gente se encontrava numa só semana umas quatro, cinco ou seis vezes. E tinha uma encomenda no ar que era terrível, a do “tem música nova?” Isso daí era espetacular para a carreira de uma pessoa. Quem organizava isso era o Vinicius (de Moraes). Vinicius foi embora, acabaram as reuniões.