Existem basicamente duas maneiras de se gravar um disco de covers. A primeira é dedicar um álbum ao repertório de um determinado artista, o manjado "fulano canta beltrano", ou então criar um conceito, como escolher canções da bossa nova ou outro gênero, resgatar a música de uma determinada época ou até fazer um recorte geográfico. Por exemplo, o samba do Recôncavo baiano.
A outra maneira é o oposto dessa construção cerebral. É simplesmente entrar no estúdio e puxar pela memória afetiva canções que o artista adora, sem justificativas históricas ou estilísticas. E não é preciso perguntar qual é a escolha de Paulo Miklos. Seu novo trabalho, "Coisas da Vida", é uma seleção carinhosa e bem variada de gêneros, artistas e épocas. O único critério parece ser música boa.
Só mesmo a predileção pessoal para unir um repertório de vai tranquilamente do Clube da Esquina mineiro ao som periférico de São Paulo, de um hino romântico sertanejo a um rock legitimamente contestador de Cazuza. E Miklos consegue essa proeza construindo uma moldura sonora que dá uma inquestionável unidade a um punhado de estilos diferentes.
Impossível falar em busca por identidade sem incluir na discussão os videoclipes produzidos para as 11 faixas do álbum. Disponíveis no YouTube, mostram elementos visuais recorrentes. Em muitos, Miklos apresenta as canções em botecos, numa homenagem à boêmia. Trocas de olhares de simpatia entre o cantor e os figurantes também formam um recurso narrativo.














