Contar segredos alivia. Quando vejo uma plateia lotada, um grupo de pessoas em relativa concentração, costumo perguntar se alguém tem um segredo de família que gostaria de contar para mim. Eu coleciono. Já colecionei búzios, pedras, santos, coisas que ocupam espaço. Segredos contados são leves como o vento; sempre terei lugar para mais um.
De vez em quando é necessário libertar as coisas que se guarda. Há um efeito de catarse. Mas não é em qualquer lugar que se lança uma pergunta assim. Depende do contexto, da faixa etária, da hora do dia e, sobretudo, do que está sendo servido. Pergunto porque vale a pena. É uma forma de juntar todas as pessoas com foco e atenção para uma só voz.
Velório de morador de rua agredido não identificado, em São Paulo, em 2004 - Keiny Andrade - 31.ago.04/Folhapress
Esses dias ouvi um dos mais absurdos, sobre o primo de uma moça que estava desaparecido e foi encontrado em situação trágica, atropelado. Um dos parentes foi ao IML para reconhecer e liberar o corpo. Fizeram velório, caixão aberto, com reações diversas da família. Pena, preocupação, espanto, tristeza diante do rosto inchado de um rapaz jovem que perdeu a vida depois de tantas imprudências.
As lágrimas secaram e a vida dos vivos seguiu, até que o morto tocou a campainha seis meses depois. Estava vivo e limpo, não parecia ter saído da tumba, pois nunca esteve lá. Quem reconheceu o corpo errou. Era outra pessoa. Pelo que soube, é muito complicado enterrar o morto errado. Tem que tirar o caixão, pagar novos trâmites de exames do cadáver, tentar descobrir quem é a pessoa. E desmorrer o parente.







