O recorte inclui Maré, Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Manguinhos, Brás de Pina, Cidade Alta, Kelson's/Marcílio Dias e áreas de Ramos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Dona Celeste Estrela, relíquia de Manguinhos, publicou o primeiro livro aos 79 anos — Foto: Thais Valencio/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/07/2026 - 18:49 "Corpo Morada": Mapeamento Cultural da Zona da Leopoldina no Rio O projeto "Corpo Morada", do Observatório de Favelas e Iphan, mapeia a história e cultura da Zona da Leopoldina, no Rio, englobando áreas como Maré e Complexo do Alemão. A iniciativa envolve moradores em formação sobre patrimônio cultural, resultando no e-book “Corpo Morada”. Destaques incluem a escritora Dona Celeste de Manguinhos e a urbanização pioneira de Brás de Pina. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em Manguinhos, Dona Celeste Estrela, de 85 anos, é escritora, atriz, cantora e uma referência cultural da comunidade. No Complexo da Penha, o projeto Passinho Carioca e o Baile da Gaiola ganharam fama internacional. Já Brás de Pina, considerada a primeira favela urbanizada da América Latina, preserva espaços que testemunham a mobilização pioneira de seus moradores pelo desenvolvimento urbano local desde os anos 1960. O que explica o aluguel cada vez mais alto no Rio? Zona Sul concentra bairros mais carosUma floresta intocada a apenas 42 quilômetros do Rio: expedição revela segredos da Reserva do Tinguá Esses são alguns dos personagens, manifestações culturais e lugares reunidos pelo Corpo Morada, iniciativa do Observatório de Favelas em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O projeto, que chega à terceira edição, oferece formação em educação patrimonial para moradores das periferias, aliando pesquisa, reconhecimento e inventário dos patrimônios locais. Mutirão para levantar casas em favelas de Brás de Pina — Foto: Correio da Manhã/ Arquivo Nacional O trabalho percorreu um conjunto de territórios da Zona Norte historicamente conhecido como Zona da Leopoldina, região marcada por intensa produção cultural e por sua importância na formação urbana do Rio. O recorte inclui Maré, Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Manguinhos, Brás de Pina, Cidade Alta, Kelson's/Marcílio Dias e áreas de Ramos. — A Leopoldina tem um valor histórico muito importante na formação do Rio de Janeiro. Essa memória começa nos sambaquis, passa pelos tupinambás, pelos quilombolas, pela ocupação da Baía de Guanabara e pelas primeiras favelas — afirma Lino Teixeira, coordenador-geral da pesquisa e do Eixo de Políticas Urbanas do Observatório de Favelas. Cerca de 20 moradores da Leopoldina, entre ativistas, pesquisadores e estudantes, foram selecionados para participar da formação, realizada em parceria com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ao longo do curso, eles mapearam aquilo que consideram memória e patrimônio em seus territórios. Líderes comunitários analisam mapas de construções — Foto: Correio da Manhã/Arquivo Nacional O resultado é o e-book “Corpo Morada – Inventários e Educação Patrimonial nas Favelas da Leopoldina”, uma espécie de coletânea dos tesouros das comunidades da região. Moradora da Maré e mestranda em Cultura e Territorialidade pela UFF, Maiara Viana, de 30 anos, não foi aprovada na primeira seleção, mas insistiu até conseguir uma vaga. — No meu estudo eu pesquiso a relação entre corpo e território, entendendo o corpo como o primeiro lugar de apreensão do mundo. Quando vi o projeto Corpo Morada, pensei: “faz muito sentido para mim”. Conheci muita coisa de outras favelas que eu não conhecia e passei a olhar com mais atenção para lugares da própria Maré. O resultado ficou muito bonito — conta Viana. Palacete invadido, antigo IML, hospital fechado e sede histórica dos Correios: edifícios retratam desafios da revitalização do Centro De doméstica a escritora Cada favela recebeu um eixo temático e, dentro dele, foram identificados lugares, práticas culturais e personagens considerados “relíquias”, termo inspirado na gíria carioca usada para definir alguém muito antigo ou digno de respeito. É o caso de Dona Celeste Estrela, de 85 anos, escolhida como relíquia de Manguinhos. Depois de trabalhar como empregada doméstica e em uma empresa de ônibus, decidiu, já aposentada, investir no sonho de ser escritora, atriz e cantora. Publicou o primeiro livro aos 79 anos e já concluiu o terceiro, à espera de uma editora. — É muito emocionante receber esse reconhecimento. Passei por muita humilhação na vida, sofri racismo. Na escola, até a professora me chamava de “macaquinha”. Mas a cultura sempre mexeu comigo. Aos poucos fui tendo oportunidades, fiz teatro. Hoje escrevo peças, monólogos, conto minhas histórias. Gosto de rap e organizo eventos — diz Dona Celeste. Em Brás de Pina, o destaque ficou para a luta dos moradores da Vila Santa Edwiges contra a remoção na década de 1960. Com apoio de urbanistas, eles elaboraram um projeto que previa a permanência das famílias, com abertura de ruas, implantação de infraestrutura e construção de moradias em sistema de mutirão. A experiência transformou a comunidade em referência para políticas de urbanização de favelas em todo o país. — O ponto-chave é superar os estigmas, mudar a forma como a favela é vista e criar novos marcos para valorizar seu patrimônio e sua gente — conclui Lino.