Numa passagem das "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o defunto autor, perambulando e filosofando, vai dar à porta do Pharoux, primeiro hotel de luxo estabelecido no Brasil, em 1838, famoso pela gastronomia e pelos vinhos franceses. Descobre-se com fome: "Não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas!".

O hotel Pharoux ficava no largo do Paço, hoje praça 15. Para Machado de Assis, tudo na geografia do Rio de Janeiro de sua época tinha um significado íntimo, que moldou sua sensibilidade artística. Orgulhava-se de ter nascido na cidade, de ter morado nela a vida inteira —em 69 anos, o lugar mais distante em que esteve foi Barbacena (MG), com idas esporádicas a Nova Friburgo (RJ)— e de ter feito dela um personagem de sua obra. Como a Paris de Balzac ou a Londres de Dickens.

Daí a relevância de um livro recém-lançado, "Machado de Assis: Caminhos de Suas Moradias na Cidade do Rio de Janeiro" (Editora Lacre), do arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti. Nele estão relacionadas, com base em documentos, mapas e material iconográfico, as nove casas em que morou o autor de "Dom Casmurro" —uma delas "esquecida" do rol oficial, o sobrado da rua da Alfândega, 123.