No dia em que Cortázar conheceu o cubano Lezama Lima, saíram para jantar. Depois, o autor de "O Jogo da Amarelinha" relatou que o criador de "Paradiso" bebia seu vinho como um alquimista que observa um líquido precioso numa redoma.

Faz todo o sentido, pois o estilo do escritor induz a uma lenta degustação. Sensualista, maximalista, o dândi Lima se alonga por 40 páginas em sua obra-prima para descrever um prato caribenho. Faz da literatura um banquete (nada platônico).

As bebidas não poderiam faltar. Em outra parte, declara meio misteriosamente que os titãs da mitologia não têm força diante dos moinhos de vinho. Nada como o poder da seiva de Baco. Essa abundância sensorial, que inclui a paisagem tropical de Cuba, faz pensar num ecossistema fervilhante.

Não consta que o bar Paradiso em Barcelona tenha alguma relação com o livro. Mas poderia ter. Eleito em 2022 o melhor do mundo, se destaca pela exuberância barroca e a ousadia na montagem dos sabores. Moldado em formas orgânicas de madeira, é um ecossistema próprio, com pegada ambientalista.

Seu princípio é o do lixo zero, em que nada se perde, tudo é aproveitado. Daí que cada casca de fruta é utilizada, todo o lixo plástico é transformado e a sazonalidade dos ingredientes é respeitada, com prioridade para produtos locais, de pequenos agricultores.