Imagine caminhar pela orla de Copacabana e descobrir que um edifício hoje cercado por outros residenciais já foi o mais alto da praia. Que sua construção, na década de 1930, representou uma ousadia para a engenharia brasileira por ter 15 pavimentos e que, segundo boatos, seu nome teria sido escolhido em referência à montanha mais alta do planeta por causa do humor peculiar de seu empreendedor. Ou passar pela Rua Tonelero sem saber que ali, na entrada de um prédio residencial aparentemente comum, ocorreu um dos episódios mais marcantes da história política do país. Foi no número 180 que, em agosto de 1954, o jornalista e deputado Carlos Lacerda sofreu o atentado que agravou a crise política que culminaria no suicídio do presidente Getúlio Vargas menos de três semanas depois. Poucos quarteirões adiante, outra fachada guarda a memória de Grande Otelo, um dos maiores nomes da história do cinema brasileiro. Já no Leblon, um edifício moderno esconde sob sua aparência renovada a lembrança de um antigo cinema que fez parte da vida cultural carioca durante décadas. O Rio de Janeiro está repleto de histórias assim. Algumas registradas em livros, outras sobrevivem em arquivos públicos, documentos dispersos, fotografias antigas ou na memória de pesquisadores e moradores. Muitas, porém, acabam invisíveis para quem atravessa diariamente as ruas da cidade sem conhecer os acontecimentos que moldaram aqueles espaços. Foi justamente para aproximar o público desse patrimônio que nasceu o Passeio Carioca, aplicativo que utiliza geolocalização para conectar usuários a milhares de histórias distribuídas pelo território urbano. Lançada oficialmente em janeiro de 2025, a plataforma reúne hoje mais de 2.500 registros sobre imóveis históricos, monumentos, estátuas, igrejas, chafarizes, casarões, personalidades, espaços culturais, bares tradicionais e outros marcos da memória carioca. A ideia surgiu de uma situação aparentemente simples vivida pelo empreendedor Renato Bellini. Morador do Rio há cerca de 25 anos, ele costumava acompanhar páginas dedicadas à história da cidade nas redes sociais. Em determinado momento, tentou reencontrar uma publicação que contava a trajetória de um imóvel situado onde hoje funciona o Hotel Emiliano, em Copacabana, mas não conseguiu localizar novamente o conteúdo. — Um dia quis contar para um amigo a história do Consulado da Aústria, que ficava num casarão que foi demolido para a construção do Emiliano, e não consegui mais encontrar aquela informação. Foi aí que tive a ideia de desenvolver um aplicativo com mapa geolocalizado — conta Bellini. A proposta era permitir que qualquer pessoa pudesse caminhar pela cidade e visualizar, em tempo real, as histórias relacionadas ao local onde estivesse. A iniciativa acabou encontrando um espaço pouco explorado entre turismo, tecnologia, educação patrimonial e memória urbana. Em vez de exigir que o usuário saiba previamente o que procurar, a plataforma transforma a própria cidade em um grande acervo. Ao abrir o mapa, moradores e visitantes podem visualizar bens tombados, edifícios históricos, esculturas, igrejas, monumentos e pontos de interesse distribuídos pelos bairros cariocas. Cada item reúne informações históricas, fotografias e curiosidades contextualizadas. Entre os registros disponíveis está o Edifício Himalaya, na Praia de Copacabana. Construído em 1938, o prédio foi resultado da primeira incorporação realizada pela construtora FPVeiga e Faro Filho. Na época, o empreendimento chamou a atenção por seus 15 pavimentos, uma altura considerada impressionante para o período. O projeto estrutural foi desenvolvido pelo engenheiro Emilio Baungart, referência nacional em concreto armado. Segundo relatos preservados pela memória urbana da cidade, o edifício permaneceu por um período como o mais alto da orla de Copacabana. Uma história atribui o nome Himalaya ao senso de humor do empreendedor, numa alusão à sua posição de destaque na paisagem. — Essa história é autoral. O neto do dono da antiga construtora, Fábio Penna da Veiga, viu o nosso Instagram e disse que queria nos contar sobre o edifício. Esse conteúdo não está no Google ou em qualquer outro lugar, só existe no nosso aplicativo — orgulha-se Bellini. Himalaya. Construção ousada pelos 15 pavimentos na orla de Copacabana — Foto: Divulgação/Passeio Carioca A poucos metros dali está outro endereço repleto de curiosidades, a começar pelo nome: Albervânia, uma mistura de Alberto e Vânia, em homenagem aos filhos do construtor. O edifício entrou para a história em 5 de agosto de 1954 quando um atentado contra Carlos Lacerda deixou ferido o jornalista e matou o major Rubens Vaz, desencadeando uma crise política que culminaria no suicídio de Vargas 19 dias depois. O aplicativo também revela detalhes menos conhecidos sobre o local, como a preservação de elementos originais da arquitetura, entre eles a portaria revestida de mármore. Mas não são apenas os grandes acontecimentos políticos que aparecem no mapa. O usuário pode descobrir onde moraram artistas, intelectuais e personalidades que ajudaram a construir a identidade cultural da cidade. Um dos exemplos é a antiga residência de Grande Otelo na Rua Siqueira Campos 210. O ator marcou a história do cinema brasileiro e participou de produções como “Macunaíma”. Aplicativo reconstrói a história invisível do Rio Cine Rian. Público faz fila para ver o lançamento do filme “ET, o extraterreste” em 1982 no cinema na orla de Copacabana — Foto: Hipolito Pereira/25-12-1982 As transformações urbanas também ganham destaque no aplicativo. No Leblon, por exemplo, a plataforma ajuda a contar a história de um bairro que se tornou referência em retrofit. Muitos edifícios construídos nas décadas de 1950 e 1960 passaram por profundas intervenções arquitetônicas ao longo dos últimos anos, recebendo novas fachadas e amplas varandas. Para muitos observadores, parecem construções recentes. Na prática, carregam décadas de história sob uma aparência renovada. O mesmo acontece com o antigo Cine Miramar. Durante décadas, o cinema fez parte da paisagem da Avenida Delfim Moreira, na esquina com a General Artigas. Após sua demolição, nos anos 1970, um edifício residencial ocupou o terreno. Décadas depois, a construção também passou por um retrofit, criando uma espécie de sobreposição de tempos e memórias em um mesmo endereço. Esse olhar sobre a cidade vai além da arquitetura e alcança também a memória afetiva dos cariocas. Entre os milhares de registros disponíveis estão antigos cinemas que marcaram gerações e desapareceram da paisagem urbana. Em Ipanema, o usuário encontra a história do Cine Pirajá, inaugurado em 1936 e que chegou a reunir mais de 1.700 espectadores. Também pode conhecer o antigo Cine Ipanema, uma das mais imponentes construções art déco do bairro, demolida em 1967. Em Copacabana, uma das histórias mais curiosas é a do Cine Rian, criado por Nair de Teffé, caricaturista e ex-primeira-dama da República. O espaço entrou para a memória da cidade por sua importância cultural e por episódios como as sessões que ajudaram a popularizar o rock entre jovens cariocas nos anos 1950. Já o tradicional Roxy, inaugurado em 1938, permanece vivo. Transformado em novo espaço de entretenimento, ainda ocupa espaço na vida cultural da cidade. No Leblon, o antigo Cinema Leblon segue reconhecido como patrimônio cultural por sua relevância para a memória coletiva do bairro. Ao reunir essas histórias em um mesmo ambiente digital, o aplicativo acaba reconstruindo uma geografia cultural que, em muitos casos, desapareceu fisicamente da cidade. Para tornar esse acervo possível, a equipe buscou apoio de instituições responsáveis pela preservação da memória e do patrimônio fluminense. — Temos parceria com o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a Arquidiocese, RioTur e outros órgãos porque muitas dessas histórias estavam espalhadas em PDFs, publicações e diferentes plataformas. O aplicativo reúne tudo isso e faz uma curadoria em um único lugar — afirma Bellini. O CInema Leblon prestes a ser inaugurado em 1975 — Foto: Manoel Soares/30-09-1975 O trabalho não se limita à simples reprodução de informações. Uma das iniciativas mais originais do projeto é a chamada Ação Voz da Cidade, desenvolvida em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).Textos produzidos por estudantes e pesquisadores do curso de História foram transformados em áudios narrados em primeira pessoa. Na prática, as próprias estátuas contam suas trajetórias ao visitante. — O professor Rodrigo Rainha e os alunos produziram os textos. Nós transformamos esse material em áudio. Assim, a estátua fala em primeira pessoa e conta como viveu na cidade. É um trabalho inédito — explica Bellini. Atualmente, cerca de oito estátuas já contam com esse recurso — todas na Zona Sul: o banco de Millôr Fernandes e as estátuas de Braguinha, Cazuza, Dorival Caymmi, Nelson Rodrigues, Tom Jobim, Irineu Marinho e Zózimo Barroso do Amaral. A plataforma também procura aproximar patrimônio histórico e atividade econômica. Além dos roteiros culturais, o aplicativo reúne bares tradicionais, restaurantes, confeitarias, museus e outros estabelecimentos ligados à história da cidade. Mais de 60 roteiros temáticos ajudam a organizar a experiência dos usuários. Há percursos dedicados a bairros específicos, personagens históricos, arquitetura, patrimônio religioso e diferentes períodos da formação do Rio. O sistema utiliza geolocalização para identificar quando o visitante chega a determinado ponto de interesse. Ao realizar check-in, o usuário acumula medalhas virtuais e avança pelos roteiros propostos, incorporando elementos de gamificação à experiência cultural. A estratégia tem ajudado a ampliar o alcance da iniciativa. O projeto recebeu, em 2025, a medalha de bronze no Prêmio Nacional do Turismo, na categoria voltada à valorização do patrimônio cultural. — Desde 2022 participamos de programas de aceleração, fomos modelando o negócio e conquistando reconhecimento. Recemos até alguns prêmios e reconhecimento mesmo antes de estrear o app. O prêmio nacional foi uma validação importante para o projeto — diz Bellini. Cazuza. Pelo app é possível escutar o cantor contando sobre sua vida — Foto: Domingos Peixoto/02-12-2016 Para viabilizar o projeto e conseguir monetizar, a plataforma passou a conectar patrimônio cultural, turismo, gastronomia e mercado imobiliário. Em parceria com a Sérgio Castro Imóveis, especializada em imóveis históricos, o aplicativo reúne informações sobre edifícios de relevância arquitetônica e cultural e, quando há unidades disponíveis, também atua como ponte entre compradores e a imobiliária. O modelo se estende a bares, restaurantes, confeitarias e outros estabelecimentos tradicionais da cidade, que podem integrar os roteiros e o mapa interativo e ganhar mais destaque na plataforma para ampliar sua visibilidade. Além disso, o aplicativo comercializa passeios guiados realizados por profissionais credenciados. — Conseguimos unir a valorização da história da cidade a oportunidades de negócio. Há pessoas interessadas em morar em imóveis com relevância histórica, arquitetônica e cultural. Quando existe um apartamento à venda, fazemos essa intermediação. Também trabalhamos com bares, restaurantes e passeios guiados. Fomos encontrando formas de monetizar sem perder o foco na preservação e na divulgação da memória da cidade — explica. O crescimento abriu caminho para novas expansões. Após o sucesso da plataforma na capital fluminense, a startup foi contemplada em edital da Faperj para levar o modelo a outras regiões do estado. A primeira experiência fora da cidade já tem destino definido. — Em julho vamos lançar o Passeio Vale do Café, utilizando a mesma lógica de reunir histórias, patrimônio e turismo em uma única plataforma — adianta.
Memória urbana viva: Aplicativo une tecnologia, turismo e patrimônio para traçar um mapa com histórias de endereços cariocas
Plataforma permite explorar, em tempo real, as histórias muitas vezes desconhecidas







