Quando comecei a frequentar o AA, morria de medo de que minha avó morresse. Eu intuía que não ia aguentar o tranco. Mas ela só partiu quando eu já estava em recuperação havia dois anos. Nesse tempo, consegui estar ao seu lado: cuidei dela, retribuí um pouco do cuidado que ela sempre teve comigo e mostrei que, enfim, eu estava bem. Ela foi em paz.

Na minha experiência, todo alcoólatra é carente. Precisa preencher o espaço que antes era ocupado pela bebida. Já falei muitas vezes do meu cachorro, mas acho que nunca contei o quanto sou sonhadora quando o assunto é amor. Minha irmã sempre diz que vivo num mundo à parte. "O maravilhoso mundo da Alice." Me apaixono com facilidade e me apego demais. A maioria dos meus relacionamentos aconteceu muito mais dentro da minha cabeça do que na vida real. Imaginei futuros, construí histórias, quando, na verdade, era apenas um envolvimento passageiro.

Falar de sentimentos é delicado. Sempre tive muito medo da frustração. Talvez por isso escolhesse pessoas emocionalmente indisponíveis. Era uma forma de me proteger: sonhar parecia mais seguro do que viver um relacionamento de verdade. O tombo de uma decepção pode ser um convite à recaída.

Recentemente ganhei um livro de poemas. Finalmente embarcava em algo mais concreto, pensei. Mais uma vez, porém, transformei um gesto em uma promessa. Quem não quer viver uma relação tranquila? O problema é que filtrei errado todos os sinais. Ou talvez não os tenha filtrado: apenas escolhi acreditar na versão que eu havia criado. Fazia muito tempo que eu não me envolvia com alguém.