O ano era 2014, eu ainda estava tentando parar de beber e com uma baita depressão. Eu lembro perfeitamente do sentimento de que minha vida tinha acabado. Com apenas 30 e poucos anos, já achava que tinha fracassado em tudo.

Era freelancer, como até hoje, então os trabalhos chegavam ou não. Se estava envolvida com algum, ficava mais tranquila. Mas, se não aparecia nada num mês, a depressão dava as caras com tudo.

Um médico amigo da família trabalhava numa penitenciária feminina e me convidou para acompanhá-lo em suas visitas. Aceitei, claro. Não tinha muita coisa para fazer, e, quando minha cabeça estava vazia, era uma loucura. Só pensava em desgraça. Como até hoje, aliás.

Então, num determinado dia da semana, eu ia até a casa dele e seguíamos para a penitenciária. Jamais esqueci da primeira vez que entrei lá e passei pela revista corporal, deixei meus documentos, vi a desconfiança no olhar dos guardas, que só se desfazia quando o médico dizia: "Ela está comigo". Aí eles abriam um sorrisão.

Enquanto o médico atendia, eu, com um medo difuso, ficava sentada numa escada, ao lado do carcereiro que organizava os atendimentos. As conversas que tive com esse senhor são das mais bonitas de que me lembro. Ele sabia do meu problema com o álcool e se abriu comigo. Disse que não bebia mais, que tinha se descoberto alcoólatra, e me contava sua rotina. Morava numa casa com muitas galinhas, cuidava de cada canto do seu lar. Amava trabalhar na cadeia e cuidar com zelo de todas as detentas. Arrumava remédio, servia de terapeuta, fazia o que podia.