Quando essa coluna ia fazer um ano, decidi criar um espaço, o Papo de Alcoólatra, em que entrevistaria outros dependentes em recuperação. Pensei no Ruy Castro e em nomes como Nando Reis, Barbara Gancia e Casagrande. O projeto não foi adiante porque tive meu surto na viagem em que também comemoraria o aniversário da coluna. O episódio retardou muitas decisões. Foi preciso aceitar que minha vida tinha tomado outro rumo.

Há pouco, resgatei minhas conversas e, em um papo, Ruy Castro me perguntou como eu tinha tanto assunto para esse espaço. Apenas sorri. Aqui trato dos assuntos que me afligem enquanto alcoólatra e de tudo o que a recuperação trouxe para minha vida. Encarar a vida sóbria é maravilhoso, mas também muito desafiador. Conto como enfrento os obstáculos e o que aprendi nesta jornada, apoiada pelos Alcoólicos Anônimos.

Assunto é que não falta. Há meses, li que chegaram à conclusão de que não existe dose segura para beber. Qualquer quantidade é prejudicial ao organismo. Papo chato para quem gosta de uma bebidinha uma vez ou outra.

Mas aqui falo daqueles que exageram, que sofrem de alcoolismo e para quem um gole nunca basta. Lembro que, na ativa, ficava segurando um copo e o virava em minutos. Isso é doença, é insaciedade. Movimentos como Janeiro Seco e Sóbrio Curioso ajudam aqueles que exageram, mas, no meu caso, não houve meio-termo nem curiosidade em ficar sóbria, e sim necessidade. As atrocidades que cometi só foram brecadas depois das internações e do meu ingresso em AA.