É impressionante como misturo sentimentos na minha cabeça. Posso estar superocupada, fazendo mil coisas ao mesmo tempo, mas minha mente fica grudada em questões aleatórias. Acho que essa era a minha capacidade de equilibrar os pratos enquanto bebia. Fazia mil coisas, achando que estava dando conta de tudo, mas, no fundo, não fazia nada. Ou melhor, fazia tudo para não precisar olhar para o que acontecia dentro de mim.
Tudo ficava tranquilo quando eu bebia. O álcool tinha uma função muito clara: calava aquilo que eu não conseguia calar sozinha. Depois de algumas doses, as coisas pareciam menos importantes. Os problemas continuavam ali, mas eu conseguia olhar para eles sem sentir aquele peso todo. Era como se alguém diminuísse o volume da minha cabeça, das vozes que se superpunham. (Não, não ouvia vozes, estou usando uma metáfora.)
E talvez tenha sido aí que começou a confusão. Eu passei a acreditar que beber me ajudava. Que eu precisava da bebida para relaxar, para socializar, para dormir, para trabalhar depois de um dia difícil, para comemorar, para esquecer. Sempre existia uma razão, ainda que imaginária.
Mas a tranquilidade durava pouco. E, quando passava, tudo voltava, às vezes pior. A ansiedade, a culpa, a vergonha, as coisas que eu tinha falado ou feito. Eu bebia para me sentir bem e depois precisava lidar com a pessoa que eu tinha sido enquanto bebia. Era um ciclo que eu demorava a enxergar porque, de alguma maneira, eu ainda conseguia funcionar. Trabalhava, resolvia problemas, encontrava pessoas, fazia planos. Por fora, parecia que estava tudo no lugar.







