Encontros gastronômicos inspirados na literatura contribuíram para que a programação paralela fosse a maior de uma edição da festa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Chef Rita Magro, portuguesa que se inspira em 'Ensaio sobre a cegueira', de Saramago, para criar pratos — Foto: Mariana Vergara/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Com recorde de eventos na programação paralela, a 24ª Flip destacou a relação entre gastronomia e literatura por meio de experiências sensoriais inspiradas em autores como José Saramago e Fernando Pessoa. A 24ª edição da Flip registrou recorde de eventos em sua programação paralela, com destaque para a fusão entre literatura e gastronomia em pratos inspirados nas obras de José Saramago e Fernando Pessoa. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Se alguém disser que viu uma mesa de José Saramago (1922-2010) na Festa Literária Internacional de Paraty, não duvide da sua sanidade. A obra do escritor inspirou um show cooking na sexta-feira, na Casa Portugal, na programação paralela da 24ª edição da Flip. Chef mais jovem a receber uma estrela Michelin em Portugal, Rita Magro traduziu a prosa do Nobel de Literatura em uma experiência sensorial. Um prato com ingredientes da cor branca reinterpretou o clássico “Ensaio sobre a cegueira”. — Associamos a cegueira a uma escuridão, mas o Saramago faz o oposto com a ideia da cegueira branca — explicou a chef, cofundadora do Blind, restaurante que serve refeições às cegas e cujo nome também homenageia o romance de Saramago, na cidade do Porto. — O prato é um desafio para que as pessoas, sem conseguirem perceber o que estão a ver com os olhos, cheguem aos aromas e às texturas através dos outros sentidos, usando o cheiro, o paladar e a textura. O show cooking fez parte de um recorde batido pela Flip este ano: foi a edição com o maior número de eventos na programação paralela. São 46 casas parceiras espalhadas por Paraty, nove a mais do que no ano anterior, explorando todos os nichos possíveis, como a ligação entre culinária e escrita. No encontro em que esteve Magro, os heterônimos do poeta Fernando Pessoa inspiraram a chef brasileira Georgia Joufflineau a criar quatro variações de degustação baseadas na mandioca. — No caso de Pessoa, nosso caminho é pelas frases, pelo que os heterônimos diziam e nos inspiravam — explicou a historiadora Ana Cota, curadora gastronômica da Casa Portugal. Pratos inspirados por Fernando Pessoa foram apresentados na Casa Portugal — Foto: Divulgação O aproveitamento da gastronomia estendeu-se à pedagogia da escrita, ao resgate da memória e à difusão científica na programação paralela da Flip. — Descrever o preparo de um prato é estimular a imaginação do leitor, que precisará interpretar à sua maneira com seus utensílios, ingredientes, medidas e técnicas — afirmou Bruno Brito, diretor do instituto de pesquisa e design gráfico Arado, que lançou em Paraty o livro “Caderno de Receitas Juninas”, com 15 receitas inéditas de chefs, cozinheiros, bartenders e pesquisadores. O lançamento contou, claro, com muita comida. Chef do restaurante Banana da Terra, um ícone de Paraty, Ana Bueno serviu o seu tradicional bolinho caipira. A escritora e cozinheira Carolina Dini — Foto: Divulgação Programação infantil No sábado, a cozinheira e escritora Carolina Dini levou a pesquisa de seu livro “Papilex” para o público infantil. Em uma oficina na Casa Flip + Motiva, a autora usou desenhos, tatuagens temporárias e adesivos para fazer um “menu imaginário” baseado nos cinco tipos de gosto (doce, salgado, azedo, amargo e umami). A educação do paladar se misturou com brincadeira e fabulação, em que as crianças inventaram pratos impossíveis e refletiram sobre a relação com o alimento por meio da arte. — A minha ideia é que as crianças tragam receitas da memória delas para a gente escrever e desenhar — disse Dini. — Fizemos um estudo muito intenso para desconstruir mitos sobre o paladar, como o antigo mapa da língua. O livro demorou cinco anos para ficar pronto.