Ao completar 101 anos, O GLOBO apresenta a lista “101 brasileiros que transformam o futuro”, reunindo perfis de indivíduos que ajudam a antecipar o amanhã 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Marcus Lacerda é diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da OMS — Foto: Michell Mello RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/07/2026 - 20:25 Marcus Lacerda: Diretor da OMS destaca desafios em saúde global Marcus Lacerda, único diretor latino-americano na OMS, é destaque por sua atuação em doenças tropicais e na pandemia de Covid-19, onde liderou o estudo que demonstrou a ineficácia da cloroquina. Enfrentando desafios globais como a desinformação e desigualdade, Lacerda defende que políticas adequadas são essenciais para combater doenças em regiões negligenciadas, alertando sobre a influência política nas decisões técnicas de saúde. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A jornada traumática da pandemia de Covid-19 preparou Marcus Lacerda para enfrentar um grande desafio global. Se, há algumas décadas, o combate às chamadas doenças tropicais ficava restrito ao perímetro entre dois trópicos, um ao Norte e outro ao Sul da Linha do Equador, agora a batalha é planetária, fruto da crise climática e da desigualdade social. Único diretor latino-americano na Organização Mundial da Saúde, o cientista brasileiro responde atualmente pelo Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR), na OMS, em Genebra, na Suíça. Nascido em Taguatinga (DF), Lacerda se formou em Medicina pela Universidade de Brasília (UnB) e se especializou em Infectologia na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), no Amazonas, onde trabalhou com comunidades locais e fez estudos de alto impacto para o combate às doenças tropicais. Foi lá que mergulhou na pesquisa da tafenoquina, medicamento antimalárico, administrado em dose única. Igualmente, teve papel de destaque na implementação da profilaxia oral e injetável para HIV. Porém, foi na pandemia de Covid que o cientista passou por sua prova de fogo, ao liderar o primeiro estudo que demonstrou a ineficácia da cloroquina para combater o vírus. Foi perseguido e precisou de escolta armada. — Essa experiência, que foi muito ruim do ponto de vista pessoal, também me preparou para enfrentar hoje um grande desafio, que não é um desafio só nosso, é um desafio global. De tudo o que está acontecendo, aquecimento global, violência, doenças infecciosas, existe uma coisa que tem sido considerada como uma coisa de maior risco para a Humanidade hoje, que é a desinformação — afirma o médico brasileiro. Cobertor curto Hoje, aos 49 anos, Lacerda articula esforços para seguir combatendo doenças em declínio, mas que não estão erradicadas. Na verdade, as doenças tropicais tomaram a forma de males típicos de populações negligenciadas, que vivem nas regiões menos desenvolvidas do planeta. O médico explica que, sem políticas adequadas para combater a desigualdade e a pobreza, não é possível controlar ou erradicar determinadas enfermidades. A lógica é simples e leva a um paradoxo: à medida que determinados agentes se aproximam de serem eliminados, o interesse econômico e político perde tração, e o olhar se volta para outras prioridades. Nesse ambiente, o problema ressurge. Ele pondera que o ideal para lidar com esse dilema do “cobertor curto” seria fazer com que as prioridades fossem designadas por grupos técnicos, permitindo que o processo decisório fosse fruto de uma construção conjunta com os personagens políticos. Porém, o que vê é a invasão da política nas definições tipicamente técnicas. — Você vai deixando ali um ovo da serpente. É o caso da tuberculose. Eu preciso de alguém que politicamente consiga convencer a sociedade de que precisamos investir. Mas sempre tem essa disputa entre técnico e político. E o político está ganhando sempre.