Ao completar 101 anos, O GLOBO apresenta a lista "101 brasileiros que transformam o futuro", reunindo perfis de indivíduos que ajudam a antecipar o amanhã 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Erika Berenguer é pesquisadora da Universidade de Oxford e cocoordenadora da Rede Amazônia Sustentável — Foto: F. Forner/Rede Amazônia Sustent. RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/07/2026 - 10:28 Bióloga Erika Berenguer destaca-se na luta contra incêndios na Amazônia A bióloga Erika Berenguer, destaque na lista "101 brasileiros que transformam o futuro" do O GLOBO, se dedica há 18 anos à luta contra incêndios na Amazônia. Dividindo seu tempo entre o Reino Unido e o Pará, Erika liderou estudo que revelou a perda de 2,5 bilhões de árvores devido ao El Niño. A pesquisadora alerta sobre a "paisagem inflamável" da floresta e defende a Amazônia como essencial para a sobrevivência global. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Se alguém pergunta qual é a maior ambição profissional da bióloga Erika Berenguer, ela não titubeia na resposta: ver a Amazônia livre dos incêndios. Embrenhada na região há 18 anos, desde que se formou na UFRJ, ela já teve até quadro de pneumonia, de tanto inalar fumaça, tal qual acontece com a população local. Não é de hoje que Erika alerta que, por conta das mudanças climáticas e do desmatamento, a floresta se transformou numa "paisagem inflamável", com perda robusta de biodiversidade e potencial colapso nos estoques de carbono. Mas ela não se cansa de lutar. Pesquisadora da Universidade de Oxford e cocoordenadora da Rede Amazônia Sustentável, Erika tem 42 anos. Mora no Reino Unido, mas passa seis meses por ano no Pará, para entender as dinâmicas do fogo na floresta. Um estudo liderado por ela calculou a perda monumental de 2,5 bilhões de árvores em decorrência do El Niño entre 2015 e 2016, período dos mais severos da história do fenômeno climático. São 2,5 bilhões de árvores O poder de destruição da seca e dos incêndios resultou, de acordo com a pesquisa, na emissão de quase 500 milhões de toneladas de CO2. O volume é maior que o da média gerada pelo desmate na região. Até então, a derrubada de árvores era citada como principal problema ambiental da região pelos defensores do "pulmão do mundo". Com a pesquisa, a perspectiva mudou. — Você acorda, dorme, come, toma banho, tudo no meio da fumaça — conta Erika, que coleciona testemunhos dos habitantes sobre o impacto do aquecimento global na vida cotidiana. — Antigamente, eles iam para o roçado de manhã, depois de o sol nascer. Às 10h dava-se uma paradinha para um cafezinho e, então, seguia-se trabalhando até o almoço. Hoje, às 10h, já não dá para trabalhar na macaxeira, porque está muito quente. Eles estão saindo para trabalhar antes de o sol nascer. Há ainda relatos da macaxeira assando embaixo da terra; alguns perdem toda a produção. A exuberância da natureza fascina a pesquisadora desde criança. A biodiversidade amazônica, mesmo após tantos anos de convívio de perto, também. A riqueza natural a torna uma observadora privilegiada, que aprende algo novo e é desafiada todos os dias. O que motiva Erika a seguir incansavelmente sua jornada, mesmo acompanhando, ano após ano, a floresta virar cinzas, é o desejo de fazer o país e o planeta encararem a região como peça fundamental para a nossa sobrevivência. —A Amazônia me faz seguir. É uma região tão diversa e com tantas coisas sensacionais que estamos ainda descrevendo, que a faz parecer muito mais fascinante do que qualquer ficção —diz. — Não sinto desânimo, sinto raiva, pelo caminho que decidimos percorrer em direção ao futuro. Um futuro no qual decidimos deixar nossas florestas virarem cinzas. Um futuro que já se tornou presente, em que vemos a maior floresta tropical úmida em chamas. Estamos dizendo, com nossa inação, que a Amazônia não importa. A Amazônia continua como colônia do Brasil, um lugar para ser explorado e exaurido, não importando as consequências.