Parei. Já fazia um tempo, sentia que não estava me fazendo bem. Comecei a usar como todo mundo. De vez em quando. Socialmente. Em busca de um brilho, uma ênfase. Quando dei por mim, precisava o tempo todo. Era como se, sem ela, tudo perdesse a intensidade. Com o uso contínuo, a tolerância aumenta e você tem que usar mais e mais pra atingir o mesmo efeito. Nos últimos anos, se alguém me perguntasse por WhatsApp, sei lá, "Seu CEP é 01879-090?", eu era capaz de responder "Sim!!!". Sim, meus caros, cheguei a esse ponto. Ou melhor, a esses pontos: pra confirmar meu CEP eu podia meter três exclamações —às vezes, antes do meio-dia.

A maioria dos vícios a gente planta na adolescência pra colher na juventude. Minha dependência por exclamações foi floração tardia. Sou do século 20, das priscas eras em que as combinações eram ao telefone, entre uma boca e um ouvido. A ênfase era dada pelas cordas vocais —que, embora sejam apenas duas, têm muito mais acentos e pontuações do que as centenas de páginas da gramática. A pessoa pergunta "Seu CEP é 01879-090?" e há mil tons para soar simpático, gentil, atencioso. Já o teclado, pensava eu, com seus botões, me dava apenas duas opções —e, para escapar da rispidez do ponto final, caía na estultice da exclamação.