Nunca fui um ás na condução de minha cadeira de rodas. Sou torto quase de nascença e para coroar a vida malacabada, o meu braço esquerdo é meio barro, meio tijolo. O tempo e a prática ajudam muito a driblar os petelecos que o mundo dá nas diferenças, mas há algo que pouca gente sabe: uma adaptação que funciona bem hoje para uma pessoa com deficiência, talvez, não sirva para mais nada amanhã. Corpos com diferenças físicas cobram caro para existir dentro de algum conforto e parte dele depende de uma fatura que a sociedade resiste cada vez mais em ajudar a pagar: ter tolerância com a velocidade alheia.
Para rodar cem metros, atualmente, sinto uma mistura de fadiga, desequilíbrio e pânico. Além dos conhecidos, resistentes e onipresentes buracos das calçadas paulistanas, existem os desníveis, as rampas fora de padrão e com inclinações inadequadas. Junte-se a isso a minha própria realidade corpórea que exige mais força, mais resistência, mais atenção. Tenho frequentemente uma sensação de que o beijo no asfalto, romance tragicômico conhecido em minha trajetória, quer reapresentação em looping.
O envelhecer mexe com todos, não quero fazer usucapião das intempéries humanas, mas os impactos no meu time alteram tudo aquilo que se acreditou ter arranjado uma maneira de razoável para ser um vivente. Muda o tempo de realizar um trabalho, a forma de dormir, a forma de interagir, de dirigir, de permanecer, de namorar. Um organismo não convencional vai ter seus parafusos complexos espanados de maneira a exigir ferramentas específicas, a exigir mais tempo para engrenarem.






