Faz algum tempo que venho refletindo sobre a importância do tempo. Tempo para pensar, elaborar outras formas de ver o mundo, de simplesmente poder dar um tempo.

Não tem sido um processo fácil. Quem precisou lutar para sobreviver acredita que o tempo precisa ser utilizado de modo a seguir garantindo a sobrevivência. De tal modo que, mesmo quando a realidade se apresenta menos desfavorável, a gente não acredita que pode "perder tempo", tamanha a naturalização da pressa.

Passei um ano lecionando no MIT (Massachusetts Institute of Technology), fui a primeira brasileira convidada para o programa Martin Luther King daquela instituição. Tive um semestre sabático e, pela primeira vez na vida, experimentei algo quase inacreditável para mulheres negras: tempo.

Nunca eu havia tido sequer finais de semana verdadeiramente sabáticos, então vi esse tempo como uma quebra geracional. Confesso que na primeira semana do sabático fiquei totalmente perdida, demorei a compreender que a instituição me pagaria para que eu pudesse estudar e pesquisar. Eu simplesmente não sabia o que fazer nos primeiros dias até internalizar a oportunidade que se abria.

Reflito o quanto essa oportunidade, além de me curar, cura meu pai e minha mãe. Cura as mulheres que vieram antes de mim e foram colocadas cedo demais no forno da sobrevivência. Quando penso na história da minha família, não penso apenas nas tristezas, penso também em continuidade. Minha mãe e meu pai, com muita luta, empurraram nossa família alguns centímetros mais perto da dignidade, do estudo e da possibilidade de sonhar. E compreender esses fenômenos nos aproxima da cura, quando o sofrimento de uma geração não termina nela, mas se transforma lentamente em outras possibilidades de existência para as próximas.