"No dia 14 de maio, eu saí por aí/ Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir/ Levando a senzala na alma, subi a favela/ Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci."
As estrofes iniciais da canção "14 de Maio", de Lazzo Matumbi, descrevem o pós-abolição e ilustram a construção dos alicerces de um dos países mais desiguais do planeta —o nosso.
Assim como a concentração de renda e de patrimônio no Brasil é branca, a pobreza também tem cor: é negra. Essa realidade é fruto da escolha política de um Estado-nação que optou pelo extermínio de povos nativos, substituição da mão de obra escravizada por imigrantes europeus e adoção de um modelo institucional de gestão que exclui e marginaliza negros.
O agronegócio brasileiro é um bom exemplo. Embora a maioria dos trabalhadores do campo seja negra, as grandes propriedades rurais pertencem aos brancos. Isso é fruto da Lei de Terras (1850), que impediu o acesso dos ex-escravizados à propriedade de terras no pós-escravidão.
Sim, a realidade nacional está mudando em razão de políticas públicas de ação afirmativa adotadas no fim do século 20 —após muita peleia dos movimentos sociais negros. Mas o ritmo dessa transformação é tímido demais frente ao tamanho dos problemas criados pelo racismo.












