Empenho sustentado no nosso bem-estar importa no resultado; atalhos seduzem, mas são ilusórios 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagine se nossa rotina de exercícios pudesse ser substituída por uma pílula — Foto: Magnific Muita gente me procura achando que eu tenho uma fórmula mágica para mudar de estilo de vida e se tornar tão saudável quanto os pacientes cujas jornadas de transformação acompanhei de perto. Como se bastasse chegar ao consultório para descobrir o segredo. Talvez essas pessoas não saibam que muitos dos meus pacientes que foram bem-sucedidos só chegaram aonde chegaram porque tiveram de batalhar e ser muito persistentes. O processo de mudança de estilo de vida não vem do dia para a noite. Pelo contrário, leva tempo e é repleto de tombos e frustrações. Durante séculos, isso foi óbvio para qualquer pessoa. Para emagrecer, tornar a atividade física uma rotina, mudar o comportamento e os hábitos alimentares era necessário aprender pela constância e pela repetição — e, lógico, pela recusa. Ou seja, abdicar do que promete trazer satisfação no aqui e agora, como um docinho ou um drinque. O mesmo valia para a construção de uma carreira ou o vínculo verdadeiro com alguém. Eram, e ainda são, anos, muitas vezes décadas, até se conseguir isso. O que temos visto no mundo contemporâneo, entretanto, é o surgimento de atalhos para quase tudo. Para perder oito quilos que se ganhou recentemente, existe o remédio que o poupa do esforço da dieta. Quer ter os mesmos ganhos corporais que a prática de atividade física? Já se fala há algum tempo em uma pílula que mimetiza isso. Seria tolice negar que um atalho de vez em quando é muito bom, e essa é a ideia por trás da “proposta” de que dá para acelerar muita coisa, trazendo para o presente os resultados daquilo que se investe. Porém, talvez estejamos esquecendo que parte do valor de um resultado nasce do próprio percurso. Um estudo de 2022 mostra por que: quem consegue abrir mão da satisfação imediata e do resultado rápido vive de forma mais saudável (come melhor e se exercita mais, por exemplo) e, no fim das contas, é mais satisfeito com a vida. É essa disposição para esperar que parece produzir o bem-estar. Outro estudo, também de 2022, sugere que pessoas mais orientadas a buscarem recompensas imediatas tendem a aderir menos aos tratamentos médicos e a apresentar os piores resultados clínicos. É como se o custo do presente pesasse mais do que o ganho do futuro. Há muitos anos, circulam rumores sobre o possível desenvolvimento dessa pílula capaz de trazer ao sangue e ao metabolismo ganhos parecidos com os do exercício. Isso poderia significar um benefício real para alguém que, por exemplo, sofre com doenças que hoje o impedem de se exercitar. Mas repare que, mesmo no caso do corpo, onde o atalho tem mais a oferecer, o que a pílula entregaria é resultado e ficaria devendo a experiência gostosa de tê-lo construído. Se até no terreno do físico o desvio deixa algo de fora, imagine no campo da saúde mental? A maior parte dos componentes que compõem o que hoje chamamos “versão moderna” de saúde mental, e que está mais ligada à qualidade de vida do que à ausência de doenças, não funciona na lógica do imediatismo e da recompensa instantânea. Cultivar amigos, por exemplo, exige esforço e convivência, assim como ninguém passa a se alimentar de forma mais saudável e consistente em três dias, por mais que tenha vontade. Existe uma sabedoria tanto na espera quanto na demora. Lembro-me muito de uma frase antiga, que minha mãe costumava repetir: “o apressado come cru”. O que eu quero dizer com isso é que talvez precisemos dar um voto de confiança ao “mais para frente”, porque ganhar saúde mental é, de certa forma, apostar que vamos ver resultados lá na frente. Boa parte daquilo que chamamos de bem-estar se constrói aos pouquinhos, ou seja, um clique ou uma injeção não dão conta disso. Que tal, então, dar hoje o primeiro passo?