Hoje, até o prazer precisa apresentar justificativa nutricional. Comer e beber deixaram de ser apenas experiências de desejo, convívio ou indulgência para se tornarem atos submetidos à lógica da performance. Não basta mais que um produto seja gostoso, refrescante ou reconfortante. Ele precisa prometer ganho, equilíbrio e prevenção. Precisa entregar alguma coisa a mais, ainda que esse ‘a mais’ seja, muitas vezes, apenas um argumento de marketing.
É como se a vida comum tivesse sido capturada por uma gramática clínica. No mundo da medicalização cotidiana, tudo precisa conter um aditivo moralmente aceitável: vitamina, fibra, proteína, menos culpa e mais função. O mercado aprendeu a vender alívio preventivo para consumidores treinados a suspeitar do próprio prazer. Em vez de um alimento, oferece-se uma promessa. Em vez de um gosto, um desempenho.
Roberto e Erasmo já haviam formulado esse impasse com precisão em Ilegal, Imoral ou Engorda. Cantavam em 1976:
“Vivo condenado a fazer o que não quero
Então bem-comportado às vezes eu me desespero









